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sexta-feira, 11 de junho de 2021

Terapia do Bolinho (fanfiction)

Este conto é um fanfiction da série My Little Pony: Friendship Is Magic, de propriedade da Hasbro, e é uma continuação do conto Pinkie e o Sem Cérebro, publicado anteriormente.

 


Aquele dia começara com a promessa de ser um dia comum e normal, mas as coisas não transcorreram dessa forma. Dainty Tunes saíra da cama de manhã, lento e tonto como de costume, saíra para trabalhar pelo mesmo trajeto de sempre, e a única coisa diferente naquele dia é que ele teria a tarde de folga. Ele foi para casa, pensando em usar a tarde para trabalhar em alguma música nova ou ensaiar as que ele já tinha, pois ele achava que estava ficando um pouco enferrujado.

Mas isso não ocorreu. Ao sentar-se diante do piano, a vontade de tocar estava ausente. Ele não a tinha. Na verdade, ele não tinha vontade de fazer nada. Ela temia admitir, mas isso já era recorrente: seja lá o que ele pensasse em fazer, ele não fazia. Ele passava os fins de tarde em casa, fazendo uma série de pequenos nadas, esperando a noite cair. Ele tentava crer que isso era apenas uma fase, mas estava piorando.

Dainty foi até a janela da frente e pôs um cotovelo no parapeito, repousando a cabeça no casco. O dia parecia tão alegre e cheio de vida lá fora, e ele poderia sair e aproveitar se ele quisesse. Porém, algo fazia isso parecer fútil e sem sentido, e ele não entendia por quê. Não parecia haver um motivo racional para ele se sentir cabisbaixo e desmotivado, mas qualquer coisa que ele pensasse em fazer parecia inútil. De fato, a própria existência dele era inútil.

Talvez fosse isso. Talvez ele fosse inútil. Afinal, por que ele existia? Havia motivo? Ele podia fazer música, mas não havia qualquer sinal de que Equéstria precisasse de sua música. Tudo estava bem daquele jeito. Na verdade, o mundo inteiro parecia bem do jeito que estava, independente dele.

E o que ele poderia fazer? Ficar em casa e lamentar-se? Será que isso não confirmaria a futilidade de tudo? Talvez as coisas não precisassem ser assim.

Um pensamento ficava cutucando-lhe a mente, e ele começava a prestar atenção nele: em momentos como esse, ele bem que podia comer algo gostoso.

Gostoso… como um bolinho.

Não, ele não podia. Ele fizera a promessa: ele ficaria longe delas. Ele precisava evitá-las, senão as coisas poderiam ficar feias. Muito feias.

Mas aí estava o problema: já estava insuportável ficar evitando a tudo e a todos apenas porque algo potencialmente terrível e inimaginável poderia acontecer. Além disso, os Elementos da Harmonia sabiam quem ele era, então não poderia ser tão errado assim se ele falasse com alguma delas. E, se havia um pônei que poderia ter uma conversa sincera e amistosa com ele, era a pônei que o sequestrara, amarrara-o em uma caverna e tentara fazê-lo sumir.

Sim, isso fazia pleno sentido para ele.

*

Ele trotava por Ponyville, sempre com uma sensação de sobressalto quando ele se sentia observado; mas era sempre alarme falso. Os pôneis não notavam nada estranho nele, então estava tudo bem. Ainda assim, ele ficava mais e mais nervoso enquanto chegava perto da Sugarcube Corner, e a única coisa que o mantinha firme em seu caminho era a promessa de bolinhos.

Enfim, ele chegou, empurrou a porta de leve e entrou. O cheiro era tão bom, tão perfeito, que quase fazia-o esquecer-se de seus sentimentos. Quase. Ele olhava a loja, e tudo parecia tão perfeitamente em seu lugar que ele se lembrava de como o mundo estava bem sem ele.

A Srª Cake estava ocupada preenchendo o balcão com alimentos apetitosos, e não pareceu notar que ele se aproximava. Não havia sinais de Pinkie Pie.

— É, olá?

— Olá, senhor! — a Srª Cake disse com um sorriso largo. — Bem vindo à Sugarcube Corner. Você gostaria de dar uma olhada?

— É, sim, claro — ele respondeu, examinando os bolinhos. Eles eram lindos, e ele pensava que, enquanto ele mantivesse o foco nos bolinhos, o desconforto não o atrapalharia. — Esses bolinhos… são de morango?

— São, sim! Feitos hoje pela manhã! — a Srª Cake disse.

— O aspecto tá ótimo. Eu vou querer… quatro deles — Dainty disse, sem conseguir olhá-la diretamente. — Pra levar, por favor.

— Quatro bolinhos de morango para levar, saindo daqui a pouco! — ela confirmou.

Enquanto ela preparava o pedido, a porta da cozinha abriu-se.

— Acabei de colocar uma fornada novinha em folha para assar, Srª Cake! — Pinkie Pie proclamou. — E está na hora do meu intervalo agora… Oh, olá, Dainty Tunes! Que bom vê-lo na nossa loja! Mmm, bolo de morango! — ela disse, dando um salto até ele. — Ótima pedida! Eles estão uma delícia…. modéstia à parte.

— Eu imagino que estão mesmo, Pinkie — ele disse, enquanto recebia seu pedido e pagava por ele. — Obrigado, Srª Cake.

— Ao seu dispor! — ela respondeu. — Volte sempre!

— Então, Dainty, como vão as coisas? — Pinkie disse com um sorriso fixo em seu rosto, enquanto ele guardava seus bolinhos em seu alforje e encaminhava-se rumo à saída.

— Ah, eu, é, eu tô… bem — ele disse, a voz revelando o contrário.

— Tem certeza? — Pinkie disse, a voz dramática e pungente. — Parece que tem alguma coisa te incomodando.

— Ãh, na verdade… — Ele coçou a crina, olhando para a porta. — Eu acho que tem mesmo.

— Que tal se a gente ir lá pra fora e ter uma conversinha com a Pinkie? — ela disse. — Eu tô no meu intervalo agorinha.

O coração dele palpitou. Embora isso era o que ele imaginava fazer quando foi até ali, era chocante perceber que isso estava prestes a ocorrer, ainda mais que a ideia partira dela.

— É, claro, seria uma boa.

*

— Vamos lá, então, bota pra fora, Dainty! — ela disse assim que eles deram a volta no prédio. — O que é que tá te incomodando?

— Bom… eu não sei como é que eu posso explicar — ele começou —, mas a verdade é que… Tá, assim, Pinkie, você sabe quem eu sou. Você sabe o que eu sou, e o que eu represento neste mundo. O problema é que, eu não sei por que eu tô aqui. Até onde eu sei, me colocaram aqui como uma piada, e é isso. — O olhar dele caiu para o chão. — E é isso que eu sou. Eu sou uma piada. Nada mais do que isso: eu sou só uma piada.

— Mas eu gosto de piadas! — ela disse, quase sem pensar. — Piadas são legais! Elas fazem a gente rir e deixam a gente mais alegre!

— Ah, mas essas são as piadas boas — ele respondeu. — Eu sou uma piada ruim, Pinkie.

Ela levou um casco ao queixo. — Bom, eu acho que piadas ruins existem mesmo — ela ponderou. — Mas eu não acho que você seja isso, Dainty! Você é mais do que isso.

— Será mesmo? — ele disse, erguendo o olhar por um momento. — Quer dizer, parece que este mundo está ótimo sem mim. Tava tudo bem, todo mundo tava vivendo bem, e a minha presença aqui… Quer dizer, que diferença faz? Se eu, tipo, desaparecesse do nada, ninguém ia se importar. E eu sinto que eu poderia fazer isso mesmo. Desaparecer. Em um instante, puf, fui, e ficaria tudo bem.

Ela lhe deu um olhar suspeito, meio de lado. — Bem, talvez tenha algo que te faça sentir assim, mas eu sei que você não quer desaparecer. Quer saber como?

Ele olhou para ela, sem dizer nada.

— Você comprou bolinhos!

Dainty sempre soube que o raciocínio de Pìnkie Pie podia tornar-se uma série de ideias desconexas, mas ele nunca imaginou ser confrontado por isso. A reação dele foi apenas encará-la, esperando que ela continuasse. Mas ela não continuou.

— Tá… e?

— Ué, você não percebe? — ela disse, aproximando-se dele. — Se você quisesse mesmo desaparecer, você teria feito isso mesmo, mas não, você não fez! Em vez disso, você pensou, “hm, o que eu queria mesmo agora é comprar bolinhos!” e você veio aqui e fez exatamente isso. — As frases eram rápidas e acompanhadas de gestos e poses, e tudo parecia fazer sentido para ele.

— Então — ela prosseguiu —, o que você quer mesmo é aproveitar a vida aqui, e essa coisa que te faz querer desaparecer só quer te incomodar, mas você pode fazer ela parar de te incomodar! E, claro, nossos bolinhos são uma excelente maneira de afastar os sentimentos ruins, e é por isso que a Sugarcube Corner estará sempre aqui para servi-lo. O cliente vem sempre em primeiro lugar!

Dainty fez uma pausa, como ele demorasse cinco vezes mais para processar aquilo tudo do que ela precisava para falar. Mas ele percebia que ela tinha razão, até certo ponto: ainda havia, dentro dele, uma centelha de vontade de viver e fazer algo bom para si, apesar do temor de que ela estivesse sumindo.

— Talvez você tenha razão — ele disse. A esta altura, ele estava constrangido por ela dedicar tanto tempo e atenção a ele, ainda mais com a sensação de que ele poderia talvez matar toda a energia e entusiasmo dela; embora isso talvez fosse impossível. — Mas não dá pra viver só de bolinho, né… por mais que eu quisesse — ele disse, com uma risada fraca. — Eu só queria… Eu queria ter a sensação de que a minha vida tem algum valor. Às vezes, eu juro, eu… eu sinto que eu não valho nada.

Ele olhou para ela, tentando manter a compostura. — E isso não é só uma coisa de auto-estima. Você sabe o que eu sou. Não é tipo aqueles dias em que alguma amiga sua está triste com alguma coisa que aconteceu e começa a se sentir, sei lá, fraca, incapaz, ou algo assim. Não é isso, porque elas fazem parte deste mundo. Você faz parte deste mundo, e Equéstria não seria o lugar que é se você e suas amigas não estivessem aqui. Vocês são parte do que torna esse mundo tão maravilhoso, e, tipo, eu não sou. Eu fui jogado aqui por alguém que queria se divertir por um momento, e, agora, eu não tenho propósito.

Ele não deixava de notar a expressão dela enquanto ela escutava, os olhos fixos nele, as orelhas empinadas, compreendendo cada palavra dita, porém encarando-o como se houvesse algo óbvio que apenas ele não percebia. Parecia que ela já tinha todas as respostas, e ele apenas não as via porque não tinha procurado muito bem.

— Mas, Dainty! Se você ainda está aqui, é porque quem te pôs aqui ainda te acha importante — ela disse, sem perder a energia na voz, nem por uma sílaba sequer. — Ele se importa contigo! E isso te dá valor! E ninguém aqui te acha inútil. Na verdade, o único pônei aqui que acha que tu não tem valor é…

— Bom, na verdade — ela disse, refletindo enquanto olhava para o céu. — Não é que você pense que não tem valor. É como se alguma coisa na sua cabeça ficasse dizendo no seu ouvido o tempo todo que você não tem valor, mesmo que você tenha, porque é claro que você tem, mas essa voz tenta te puxar pra baixo porque é só isso que ela faz! É a sua voz “pra baixo”, e ela quer te puxar pra baixo porque é a única coisa que ela consegue fazer, porque ela não é você, ela nunca vai ser você, então ela precisa puxar você pra baixo! Não é essa a sensação?

— É, você talvez tenha razão — ele disse, sabendo que ela tinha plena razão.

— E você quer saber o que você pode fazer com essa voz? — ela disse, o ar cheio de tensão dramática.

— O quê?

— Você pode rir dela! — ela respondeu, pulando de alegria algumas vezes.

— Ah, Pinkie, mas eu não consigo — ele disse. — Tipo, você é o Elemento do Riso, é claro que você pode dar risada diante do medo, porque você tem esse poder. Mas eu não tenho…

Ela manteve uma pose estranha, suspensa em pleno ar. — Ei, espera um pouco! Isso não é verdade! — ela disse, aterrissando de pé no chão. — Eu não sou o Elemento do Riso porque só eu tenho esse poder. É meio que o contrário! Eu existo pra lembrar que todo pônei tem esse poder, e eles precisam encontrá-lo dentro de si, do mesmo jeito que eu! Agora, não que isso seja fácil, tá bom? — O rosto dela estava a centímetros de seu nariz enquanto ela dizia isso, seu olhar perfurando os olhos dele. — Você não vai chegar e, “ah, vou rir agora! Tudo resolvido!” Pode ser complicado e pode demorar, mas você consegue, assim como todo pônei consegue, porque você é um pônei que consegue. E, sempre que você achar que eu posso te ajudar, eu estarei aqui.

Dainty pensou nessas palavras por um instante, e começou a soluçar.

— Ei, eu te deixei triste? — ela disse, um pouco insegura.

— Não, não, não é tristeza — ele disse, secando os olhos. — Eu só… É difícil acreditar que você tá… dizendo essas coisas pra mim, porque… só um amigo diria isso.

— Então, meu amigo, você esperava o quê? — Pinkie disse. — Estamos aqui para isso!

— Obrigado, Pinkie! — Dainty disse, tentando ficar mais calmo. — Obrigado mesmo, eu… Obrigado.

— De nada, de nada e de nada! — ela disse, fazendo-o rir por um momento. — Agora, eu queria perguntar uma última coisinha pra você, se você não se importa! Posso?

Ele deu de ombros. — É, claro, sim.

— Como você perdeu o sotaque?

Dainty parou de súbito, o cenho franzido, a mente em disparada. — Eu… perdi?

— Bom, ainda tem um pouquinho bem pequenininho de sotaque lá no fundo, quando eu presto atenção — ela disse —, mas não é tão carregado quanto no início!

— Eu juro que não tinha notado, Pinkie — ele respondeu —, mas, é, isso é… bom?

— Talvez! Não que seja ruim ter um sotaque — ela disse —, mas talvez você esteja mesmo se acostumando com esse mundo, e isso sim é bom.

— Eu acho que sim, Pinkie — ele disse, sorrindo. — Isso… seria ótimo.

— É verdade, meu amigo Dainty! Agora, eu adoraria conversar mais — ela prosseguiu, a voz dela tornando-se mais baixa e mais veloz —, mas o meu intervalo já terminou uns minutinhos atrás e eu já devia estar trabalhando agora, mas!! Não esquece do que eu te falei, não exige demais de você mesmo, e, o mais importante: aproveite os bolinhos! E tá na hora de ir embora agora. Tchauzinho!

E, com um som de ricochete, ela disparou de volta ao prédio. Ele ficou ali, em silêncio, pensando no que acontecera. Ele sempre tivera tanto medo de interferir na vida dos outros, mas, não só ele tivera uma conversa com Pinkie Pie, mas ele sentia que aquilo estava fadado a acontecer. Afinal, o que Pinkie fizera não era nada fora do normal. Essa era a natureza dela. É por isso que ele a admirava, e por isso que ele quisera ir atrás dela. Então, no fim de contas, não havia nada de anormal naquilo tudo. E isso era surpreendente.

Após secar os olhos, ele ergueu o rosto, certificou-se que os bolinhos estavam em seu alforje, e lembrou-se de Pinkie falando da voz em sua cabeça. Ele quase podia escutá-la como se fosse a voz de outrem, e sua única reação foi rir, por um momento.

— É… talvez eu consiga mesmo fazer isso.

E assim, ele voltou para casa, assobiando uma melodia qualquer.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Pinkie e o Sem Cérebro (fanfiction)

Este conto é um fanfiction da série My Little Pony: Friendship Is Magic, de propriedade da Hasbro.

 

Ela pediu que elas fossem “discretas”. Vinda de Pinkie Pie, tal ordem era difícil de obedecer.

Ainda assim, elas percorriam a floresta, fazendo esforço para não perguntar por que; afinal, elas descobririam em breve, então que diferença faria? Enquanto elas prosseguiam, Applejack não conseguia deixar de notar que Pinkie navegava as curvas e dobras da floresta como se ela improvisasse o caminho na hora, ou como se a floresta abrisse tais caminhos de acordo com os caprichos dela. Twilight Sparkle prosseguia logo atrás de Pinkie, e as outras seguiam em fila, com Rainbow Dash por último, observando a todas. Rarity preocupava-se com os galhos que ameaçavam prender-se a sua crina, enquanto Fluttershy torcia que elas chegassem ao seu destino o quanto antes, pois o silêncio e a escuridão de seus arredores deixavam-na desconcertada.

E agora, elas encontram-se bem ali, na entrada de uma caverna.

— Vamos lá! Sigam-me! — ela sussurra alto.

Twilight, quase por instinto, lança uma luz mágica, e elas caminham devagar, ouvindo a reverberação de seus cascos contra o chão rochoso. Pinkie lidera, seu rosto determinado oculto das outras. Twilight tem a ânsia de perguntar o que as espera, mas ela se contém.

Enquanto elas se aproximam de uma curva, elas veem um pouco de luz vindo por trás da quina. Pinkie dá uns passos rápidos adiante, e finalmente vira-se para as outras.

— Lá está ele! Vejam!

As outras cinco pôneis fazem a curva, mas ainda é escuro demais para distinguir o que está lá, apesar das velas que cintilam debilmente no ar úmido da caverna. Applejack é a primeira a ver algo estranho. De início, ela não crê, mas ele está lá: um pônei da terra, vendado e amordaçado, amarrado a uma cadeira. Ele começa a debater-se, provavelmente porque ouve a presença delas, sua pelagem cinza-clara-quase-branca refletindo a luz das velas e da magia de Twilight; sua crina castanha, grossa e crespa, trepidando com seus movimentos.

Os olhos das cinco pôneis arregalam-se em sequência, e elas finalmente sobressaltam-se.

— Pinkie! — Twilight diz, sua voz alta repicando nas paredes. — O que é isso?

— Calma, meninas, calma! Eu posso explicar tudo! — Pinkie responde, seus olhos cerrados, a pata direita erguida com convicção.

— Uai, ocê… cê num sequestrô esse pônei aí, né? — Applejack diz.

— Bem, eu trouxe ele aqui, não exatamente com a permissão dele — Pinkie responde, segurando o queixo, ponderando os fatos. — Mas sequestrar? Isso seria terrível!

Fluttershy sentiu um aperto no estômago. Ela conseguia ouvir o pônei gemendo na cadeira.

— Pinkie, isso é péssimo! — Twilight retruca, seu chifre cintilando com uma mágica nova. — A gente não pode deixar ele assim!

— Não, não! Não faça isso! — Pinkie grita, pulando na frente do pônei, as patas dianteiras estendidas, como se isso pudesse bloquear a mágica. — Isso seria um erro gravíssimo!

— O que poderia ser mais grave do que amarrar um pobre pônei inocente em uma caverna isolada, e trazer-nas aqui para assistir? — Rarity diz. A dignidade em sua voz dava quase um glamour àquela cena.

— Inocente? — Pinkie franze o cenho. — Moças! É isso que eu tô tentando dizer! Aquele pônei — ela disse, apontando —, não é um pônei qualquer! Aquilo… é uma auto-inserção!”

O jeito que Pinkie diz isso dá a impressão de que ela vê uma câmera dando um close dramático no rosto dela.

Os outros pôneis piscam os olhos, em silêncio.

— Uma o quê? — Fluttershy diz.

— Auto-inserção? — Rainbow Dash diz. — Eu nunca ouvi falar nisso antes!

— Ocê pode explicá pra nós, Pinkie? — AJ diz.

— Vocês não sabem o que é isso? — Pinkie Pie diz, em real descrença. — Bem! Eu não sei exatamente de onde essas coisas vêm, mas, todas as vezes que eu encontrei algum, eles estavam aqui para aprontar! Eles vêm do nada, agem de forma estranha, dizem coisas estranhas, todo pônei parece cair de amores por eles, e, eu não sei como, mas eles fazem os pôneis agirem esquisito! Eles dão medo!

O pônei atrás dela parece gemer mais alto agora.

— Mas, se essas coisas existirem mesmo, como você sabe que ele é um desses? — Twilight diz, tentando manter-se racional.

— Ora, cara amiga Twilight, meu Sentido da Pinkie não falha nunca: um fisgadinha na ponta da pata esquerda, e duas fisgadinhas na pontinha do nariz, e é assim que eu sei! Inclusive, está fisgando agorinha mesmo! — ela diz, apontando para o nariz com a pata esquerda. — Vocês estão vendo? Bem aqui!

— Eu num sei se dá pra enxergá fisgadinha, não — Applejack diz.

— Certo que ela consegue enxergar, sei lá como — Rainbow Dash responde.

— Mas o que você espera que façamos? — Rarity diz, em elegante perplexidade. — Por que você nos traria para cá, afinal?

— Eu não sei como dizer isso — Pinkie proclama dramaticamente —, mas temos que fazer ele desaparecer.

— Desaparecer? — as cinco respondem, quase em uníssono.

O prisioneiro quase derruba a cadeira.

— Meninas, eu tô meio enjoada — Fluttershy interrompe, sua voz ainda mais suave que o de costume.

— Sim! Desaparecer — Pinkie insiste. — Nós não podemos permitir que essas coisas perambulem por Ponyville.

— Pinkie! — Twilight diz, dando alguns passos à frente. — Se você quer que a gente acredite em você, você precisa nos deixar falar com ele primeiro.

— Mas, Twilight! Isso é perigoso! Eu disse que eles fazem a gente agir esquisito! Eles fazem eu agir esquisito!

AJ franze a testa. — Pinkie Pie, ninguém precisa te fazê agí esquisito — ela diz. As outras acenam com a cabeça.

— Nãnãnão! Eu não digo esquisito do tipo Pinkie! Eu digo esquisito do tipo bizarro! Um tipo esquisito de esquisito!

— Eu tenho que concordar com Applejack — Twilight diz, diplomática. — Isso tudo já é estranho, portanto precisamos falar com ele.

Pinkie Pie suspira e balança a cabeça, sua fofa crina ecoando o gesto. — Vocês estão cometendo um erro, e depois não digam que eu não avisei!

As quatro pôneis sequer titubearam; exceto por Fluttershy, que estava titubeando desde que ela chegou ali.

Pinkie dá a volta no pônei e desata sua mordaça, suscitando um súbito engasgo e uma sequência de berros:

— aaaah, puta merda! Caralho, puta que pariu, que porra é ess--

Então, a venda cai de seu rosto, e, na ânsia de abrir as pálpebras, a luz arde em seus olhos e ele as fecha de novo.

Aos poucos, ele reabre os olhos, e, assim que ele vê os seis rostos diante dele, sua reação é nula.

Ele apenas fica ali, o queixo caído, os olhos congelados em um tipo de horror que não é mero horror; é um tipo estranho de fascínio, ou pelo menos é o que Rarity presume.

Depois de longos segundos de um silêncio incômodo, Twilight dá um passo adiante. — Ãh, olá?

O pônei respira fundo, quase com dor, e faz esforço pra falar. — É, tipo… é vocês mesmo? Quê que tá…

— Ele parece estar em choque, Twilight! Pobre moço — Rarity diz, pondo-se perto dele. — Não fique com medo! Estamos aqui para ajudar.

Ele viu Pinkie Pie sacudindo a cabeça, mas ele não conseguia reagir a nada.

— Ai, meu deus, eu… quer dizer, por Celéstia, eu… eu tô aqui mesmo? Isso aqui é Ponyville mesmo?

— Estamos na floresta Everfree, na verdade — Twilight responde —, mas quem é você?

— Ãh… eu… é, tipo, vocês são as Mane S-- quer dizer, ãããh, vocês são os Elementos da Harmonia, né?

Quanto mais ele falava, mais as seis pôneis notavam um sotaque incomum na voz dele, que nenhuma delas reconhecia: aquele “meãsmo”, aquele “néãm”, não eram nada familiares.

— É isso mesmo! — Rainbow Dash responde, quase fazendo uma pose.

— Sim, mas, e você? — Twilight tenta de novo. — Qual é o seu nome?

— Meu nome — ele diz, fazendo uma pausa, como se tentasse lembrar. — Eu sou o Dainty… ai, porr-- Eu sou Dainty Tunes, e… é, é isso.

— Bem, é um prazer imenso conhecê-lo, Dainty — Rarity diz —, e eu peço mil perdões por você estar nessa condição. Talvez, se nós nos conhecermos melhor, poderemos consertar essa situação horrível.

— Meninas! Vocês não sabem o que estão fazendo, não é mesmo? — Pinkie finalmente diz.

— Pinkie! — Dainty grita, exaltado. — Me tira daqui, por favor?

A pônei rosa desfere-lhe um olhar chocado. As outras cinco viram-se para ela. — Como é que… você sabe o meu nome? Eu nunca me apresentei pra você!

Dainty gagueja por um momento. — É que, ãm, todo mundo aqui te conhece, né? Tu é tri conhecida, e tal.

— Bom, isso é mesmo — Applejack diz. — Num tem ninguém que num conhece a Pinkie.

— É! É isso mesmo! — Dainty diz com urgência. — Tu é, tipo… uma pônei tri querida, e, tipo, por isso que eu, é, isso.

— Eu não tô convencida, não! — Pinkie retruca, aproximando-se dele, o que o faz encolher-se. — Então, a sua marca especial — ela diz, inspecionando-a de perto: uma clave de sol em uma pauta, seguida de três colcheias —, você faz música, então?

— É, sim, eu faço, é — ele diz —, eu faço… canções. Canções meigas. Dainty Tunes, né, é isso.

— Quais são as tríades do campo harmônico de Lá bemol maior? — Pinkie interroga, as sílabas voando tão rapidamente que ele mal consegue entender.

Ele fica com os olhos vidrados por um momento, sem conseguir pensar. — … é, Lá bemol maior, Si bemol mai-- não, menor, menor; Dó menor, Ré bemol maior, Mi bemol maior… Fá menor, e, é, Sol diminuto?

— Qual é a diferença entre Sol menor natural e Sol menor harmônica?

Dainty pensa por um momento, um pouco menos amedrontado. — Na primeira, o Fá é natural, e, na segunda, é sustenido? Não? Não, é isso, sim.

As pôneis lá atrás trocam olhares, ainda mais perplexas do que antes.

— Qual escala eu posso usar sobre o acorde Lá aumentado? — ela diz, com um olhar incisivo.

— É… qualquer uma que tu quiser, Pinkie! — ele disse, dando de ombros.

Os olhos dela ficam arregalados por um instante. — Correto! Hm, você é o primeiro que me dá a resposta certa pra essa pergunta.

— Que foi qui acabô de acontecê aí, afinal? — Applejack retruca, ajeitando o chapéu.

— Só estava checando se ele é mesmo da música, ou se é só fingimento — Pinkie explicou didaticamente. — Então! Se você escreve canções, que tal se você cantar uma delas para nós? — ela diz, com súbito drama.

— É… cantar? Bom, tipo…

Ele toma fôlego, mas logo começa a gaguejar e engasgar-se. Os olhos dele vão de um lado ao outro, e os olhares confusos nos rostos das outras pôneis deixam-no ainda mais nervoso. Enquanto ele tenta concentrar-se e parar de tremer, ele começa:

“Sai daí… O que tu pensa que vai conseguir…”

— Nada mal — Rarity diz, olhando para Twilight de relance.

Pinkie analisa cuidadosamente a canção, e começa a marcar o pulso com a cabeça, como se aprovasse-a. De súbito, então, ela começa a cantar junto:

“E pra quê? Se ao menos tu fosse um fracasso…”

As outras cinco assistem, sem reação, enquanto a cantoria fica mais e mais entusiasmada. De repente, Pinkie balança um isqueiro aceso sobre a cabeça:

“Preguiçoso e invejoso, o Cínico Meigo! Deixa de ser burro, te põe no teu lugar!”

— É, Pinkie? O que você tá fazendo? — Rainbow diz.

Do nada, os dois param de cantar. Os olhos de Pinkie arregalam-se, a pose dela congelada.

— Eu… eu comecei a cantar uma canção que eu nunca ouvi antes? — ela diz, jogando o isqueiro longe. — Vocês estão vendo? Isso é esquisito demais, até pra mim!

As pôneis dão de ombros. — Não que tenha como a gente saber — Fluttershy diz.

— Está bem, amigas, vamos manter o foco aqui — Twilight diz, virando-se para as outras pôneis. — Não podemos deixá-lo amarrado nessa cadeira sem motivo. Isso não está certo!

— Isso sim, mas a gente devia tentá conhecê melhor esse tal de Dainty aí — Applejack diz.

— Não seria má ideia — ele disse para si mesmo, antes de tossir e pigarrear alto. — Não, bah, certo! Certo, sim, a gente devia sim. Vamo lá.

Applejack fez uma pausa antes de prosseguir. — Então, parceiro, ocê é novo por aqui, né não? Cê vem daonde?

Dainty olha de um lado para o outro, nervoso, pensando. — É… Manehattan.

— Mesmo? — Pinkie diz, cética. — De qual parte de Manehattan?

Ele engole em seco. — Como assim?

— Manehattan é um lugar imenso — ela prossegue, avançando contra ele. — De qual região você é?

Ele estremece ao olhar para ela. — Da região norte?

— Região norte! — ela retruca, virando-se para as outras. — Dá pra acreditar?

— Pega leve aí, Pinkie — Applejack diz, passando diante dela para aproximar-se do pônei amedrontado. — Dá um tempo. Então, ocê veio fazê o que aqui?

— Bom, eu… eu vim fazer música.

— Você quer ser músico em Ponyville? — Rarity intervém. — Pois você teria uma chance bem maior em uma metrópole badalada, em vez do nosso humilde povoado.

— Mas e tu, Rarity? — ele diz. — Tu não teve que sair daqui por causa da tua carreira!

Ela pausa, olhando para as outras, antes de virar-se para ele de novo. — Você conhece o meu trabalho?

— É, tipo, claro! Eu… te admiro como artista, sabe.

— Oh, que lisonja, querido! — ela responde.

— Não! Rarity, não cai nessa! — Pinkie interrompe, correndo até ela. — Você não acha isso suspeito? Ele conhece você, sabe seu nome, sabe o meu nome, mas ele não sabe nem dizer de onde ele vem! Você acha que pode confiar nele?

— Pra ser sincera, ele é meio suspeito, mesmo — Rainbow Dash diz.

— Mas e se ele estiver só um pouquinho nervoso pra falar? — Fluttershy sugere, dando alguns passos inseguros na direção dele. — Quem sabe ele não se sente melhor se a gente desamarrar ele…

Pinkie Pie salta na direção dele. — Não! Não façam isso! Se a gente soltar ele, ele pode provocar o caos na vida de todo mundo!

— Uai, se ele pode fazê isso, por qui é que ele não faz isso agora? — Applejack diz.

— Amigas, amigas! — Twilight Sparkle diz, pondo-se diante das outras cinco. — Eu acho que devíamos fazer uma votação.

Pinkie joga-se no chão. — É o fim!

Twilight vira os olhos. — Enfim, quem é a favor de soltá-lo?

Ela ergue uma pata, juntamente com Fluttershy e Rarity.

— E quem é contra?

Applejack e Rainbow Dash trocam olhares e levantam a pata. Pinkie, que cobre o rosto com uma pata, ergue a outra o máximo que pode.

— Bom, isso não ajudou em nada — Twilight diz, suspirando.

— É isso que dá querê sê democrática demais — Applejack retruca.

— Meninas, deixem que eu faça uma última pergunta para ele, que tal? — Pinkie diz, levantando-se do chão. — Se isso não fizer vocês mudarem de ideia, vocês podem fazer o que quiserem com ele.

— Aí eu já gostei — Dainty murmura para si mesmo, e disfarça, pigarreando.

Twilight dá de ombros. — Tá bom.

Pinkie volta-se para ele, que agora está encolhendo-se e tremendo. — Seu sotaque. De onde é?

Ele congela por um instante. — Meu sotaque? Bah, é…

— É um belo sotaque, querido, não leve a mal. Mas eu afirmo, eu nunca ouvi outro pônei falar como você — Rarity diz —, e eu já conversei com pôneis de muitos lugares de Equéstria.

— Quem sabe não é um sotaque, mas um jeito pessoal de falar? — Twilight diz.

— Isso! É, tipo isso, né.

— Mas essas gírias? De que região isso é? — Fluttershy diz às outras. — Eu não as reconheço.

— Poderia ser o sotaque de Fillydélfia — Pinkie diz.

— É isso! — Dainty diz. — Isso mesmo.

Pinkie volta-se e aponta para ele, de pé nas patas traseiras. — A-há! Eu te peguei! Esse sotaque não é de Fillydélfia!

— … não? — ele choraminga.

— Você é uma auto-inserção!

— Tá bom, eu confesso! — ele grita. — Eu sou uma auto-inserção! Uma auto-inserção idiota, ridícula e sem sentido. Tu tem razão. Tu… vocês têm razão de ficarem bravas comigo.

— Nós não estamos bravas, amigo — Fluttershy diz.

— Eu sim! — Pinkie retruca. — Ele mentiu para nós! Ele nos enganou!

— É, eu tô com ela — Rainbow Dash diz, irritada.

— Mas por que essas auto-inserções são tão ruins? — Fluttershy diz. — O que são elas?

— São seres desconhecidos, originários de uma dimensão paralela, que se passam por pôneis em Equéstria e vivem uma vida diferente — Twilight explica. — Às vezes eles são a causa de distorções e anomalias no nosso mundo. Eles também são chamados de OCs.

— Original Characters — Dainty diz.

— Êpa, peraí — Applejack diz. — Cê sabia disso, Twilight? Cê sabia desde o começo?

— É claro. Eu já li a respeito, mas eu nunca vi um ao vivo.

— Bom, agora tu já viu, Twilight — Dainty diz, sua voz coberta de vergonha.

— E como é que a Pinkie sabe? — Rainbow diz.

— Por que é que ela não saberia? — ele responde. — Ela é a Pinkie Pie.

— O que você sabe a meu respeito, moço? — ela retruca, irritada.

— Bom, bastante, na verdade — ele diz, olhando para o chão, sem conseguir encará-la. — Mesmo eu vindo de uma dimensão diferente, a gente tá… conectado, de certa forma, dá pra se dizer. E eu admiro tudo em ti, e, por mais que esse seja um jeito… esquisito de te conhecer, eu tô grato por poder falar contigo. Tu é… genial.

Ela dá um sorriso breve antes de forçar uma carranca. — Não venha com conversa mole para cima de mim, rapaz! — ela diz. — Eu nunca vi uma auto-inserção que não causou bagunça por aqui.

Twilight franze a testa. — Quantas você já viu, Pinkie?

— Ela deve ter sequestrado todas elas — Rainbow responde.

— Que bobagem, claro que não! — Pinkie diz. — Elas às vezes vêm e vão, sem vocês verem. Mas eu vejo.

— Mas OCs não são todos ruins, eu juro! — ele diz. — Não é verdade, Rarity?

Ele pára de respirar, percebendo que fez algo muito errado.

Rarity dá uma olhada nervosa para as amigas. — Ãh, moi? Por que eu saberia disso, querido?

— É… porque tu é o Elemento da Generosidade, não é? — ele diz, estremecendo. — Tu é o tipo de pônei que saberia disso. E a Fluttershy, o Elemento da Gentileza, saberia melhor do que qualquer pess-- qualquer pônei. Por isso vocês queriam me soltar… Não que as outras sejam ruins, né, claro que não! Vocês são ótimas, todas vocês, eu só… é, esquece.

— Então, por que você está neste mundo? — Twilight diz.

— Na real, eu nem sei — ele responde. — Eu acho que… que eu queria saber como é passar por aqui, nesse mundo. Eu não queria nem conhecer vocês em pess-- é, em pônei, no caso, mas eu… eu ia ficar longe de vocês, ver as coisas à distância, e então, de repente, ir embora sem deixar rastro, tipo, fui. Tchau, radar, vamos adiante… Peraí, eu citei Engenheiros? Desculpa, gurias, eu sou um filho da p-- um tolo.

As pôneis trocam olhares confusos por um momento.

— Então, Pinkie — Rarity diz —, não havia motivo nenhum para isso tudo.

— Ah, não ponham a culpa nela, não — Dainty intervém. — Ela tem métodos… não ortodoxos, mas ela tinha razão pra suspeitar. Eu entendo ela. Ela é uma pônei maravilhosa, e eu jamais ficaria bravo com ela.

— Sim, sim, mas eu te devo um pedido de desculpas, mesmo assim — Pinkie diz, finalmente dando-lhe um olhar amistoso. — Desculpa por ter feito isso com você. E desculpa por ter assustado vocês, amigas. Eu vou ter cuidado da próxima vez… e eu não vou sequestrar ninguém.

— Certo, mas a gente vai fazer o que com ele? — Rainbow diz. — A gente pode confiar nele?

— Olhem só, meninas, eu faço uma promessa. Eu nunca, nunca vou interferir na vida de vocês. Eu nunca vou fazer nada que possa criar problema pra ninguém, seja em Ponyville ou em outro lugar. E, se eu algum dia fizer uma besteirinha que seja, eu vou embora pra sempre; e, se eu não for, vocês dão um jeito de se livrar de mim do jeito que for. Eu não sei se a minha palavra vale muita coisa, mas é tudo que eu tenho.

— É uma promessa da Pinkie? — a pônei rosa cobra.

— Sim, promessa da Pinkie! — ele diz de pronto. — Eu juro e… como é que é, mesmo?

— Eu juro e prometo colocar um bolinho no olho esquerdo! — ela diz.

Ele recita a promessa, com certo gosto. Ela sorri para ele.

— Então, o que dizem, meninas? — Twilight diz.

— Está bem, soltem ele — Pinkie diz. — Mas eu vou ficar de olho em você, ouviu?

— Eu sei, Pinkie — Dainty sorri.

Então, com uma mágica simples, Twilight desfaz os nós das cordas, e Dainty Tunes salta da cadeira, esticando as patas e o pescoço, quase em desespero. — Ai! Ah, obrigado, obrigado! Eu tava ficando maluco sem conseguir me mexer… Obrigado mesmo!

— Não tem de que, Dainty — Twilight responde. — Mas lembre-se da sua promessa.

— Claro! — ele responde, os olhos arregalados. — Eu sei o que acontece quando alguém quebra uma promessa da Pinkie… Ah, e… posso fazer um pedido? Podem dizer pro Spike que ele é demais e ele é maravilhoso e eu sou fã dele?

Twilight faz uma carranca. As outras trocam olhares.

— Vai embora, tá bom?

— Claro! Claro — ele diz e sai correndo imediatamente, quase tropeçando na primeira curva.

domingo, 26 de janeiro de 2020

O Orgulho do Pai

Este conto foi publicado no jornal Seguinte, no dia 22/01/20.
 
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A mulher abriu o quarto, e o rapaz entrou logo em seguida. Ele mal tomou conhecimento da deficiência estética do lugar e da escolha puramente pragmática dos móveis, e apenas sentou-se na cama enquanto a mulher acendia as luzes.
Pelo menos o quarto era silencioso, protegido do barulho e da movimentação do andar de baixo, onde as outras mulheres buscavam atenção dos homens, umas com um olhar bastante entediado e cansado. O rapaz tentou demorar o menos que pode para escolher aquela mulher, para livrar-se do ambiente inóspito e insalubre, de pouca luz, muito ruído, e homens cuja companhia ele jamais desejaria.…
Ele queria pensar que a escolha da mulher fora aleatória, apesar de ela ter uma aparência talvez compatível com os gostos dele; ela tinha não menos do que trinta-e-poucos anos, mas com algo de jovial na expressão facial e nos cabelos curtos e lisos, usando óculos, blusa e minissaia modestas para os padrões da casa, como se tentasse incorporar o tipo “inocente”. Tudo era apenas um palpite dele, porém. Era a primeira vez que ele estava ali—e quiçá a última—e ele não conhecia os tipos, as preferências e os fetiches. Ele seguiu a intuição, escolheu a primeira que lhe pareceu disponível e subiu as escadas com ela; tudo sob o olhar onipotente do pai, um senhor de pouco mais de 40 anos, que tentava parecer mais velho e mais vivido do que ele era.
Essa era outra coisa boa de estar no quarto: o pai não estava ali. Estava apenas a mulher, trancando a porta, e virando-se para ele, já usando de sua linguagem corporal para tentar agradá-lo.
“Eu só vou tomar um banho rapidinho antes da gente começar, tá bom?” ela disse.
O rapaz deu de ombros, exagerando a expressão de desdém. “Faz o que tu quiser.”
Ela parou, encarando-o por um instante. “Eu tô aqui pra fazer o que tu quiser, moço.”
“Então não faz nada,” ele retrucou, cruzando os braços, olhando para um canto qualquer da sala.
O banheiro tinha as paredes de cerâmica branca, que contrastava com as cores escuras e abafadas do quarto, e gritava nos olhos dele. Ele tinha os braços e as pernas cruzadas, tentando não reparar em nada, mas o berro branco do banheiro irritava-lhe.
A mulher deu um sorriso, disfarçando a perplexidade. “Não fazer nada? Tem certeza?”
“Sim. Tenho, sim” ele disse.
“Mas daí a gente vai passar uma hora aqui parado?” ela disse, sentando-se ao lado dele, o tom de voz já um pouco diferente.
“É, melhor assim,” o rapaz respondeu, tentando manter o tom decidido, apesar da voz murcha.
“Se tu não se importa de perguntar,” ela disse, após uma pausa, “tu veio aqui por quê?”
Ele olhou para a mulher com o canto dos olhos, por um breve instante. “Por causa do meu pai, tu não viu?”
“Ele te obrigou a vir?”
O rapaz hesitou por um instante. “É, tipo… sim, ele me trouxe aqui. Eu não podia dizer não.”
Ela acenou com a cabeça. “Tu nunca veio num lugar assim antes?”
“Não, nunca.”
“Que idade tu tem?”
O rapaz fez uma pausa, o olhar atraído novamente pela luz do banheiro. “Dezesseis.”
“E tu nunca transou antes?”
“Isso é algum problema pra ti, por acaso?” ele bradou, apoiando os braços na beira da cama, como se estivesse pronto para ficar de pé.
“Eu não tô te julgando, querido,” ela disse, com um sorriso complacente, tirando os cabelos do rosto. “Pra mim não é problema. Eu só tô tentando te conhecer melhor.”
“Pra quê?” ele disse, baixando o tom da voz. “Que diferença faz pra ti?”
A mulher deu de ombros. “Se eu vou ficar aqui dentro contigo por uma hora, pelo menos eu poderia saber quem tu é.”
“Quem sabe se tu não souber quem eu sou, e eu não souber quem tu é?” ele retrucou. “Eu prefiro assim.”
“Tu que sabe, então,” ela respondeu, levantando-se da cama e esticando os músculos pelo quarto, quase como se dançasse. “Uma hora é muito tempo pra gente ficar aqui em silêncio, não acha? Que tal se tu me falar sobre alguma coisa que tu gosta?”
“Nada do que eu gosto vai te interessar,” ele disse, tão encolhido sobre si mesmo que ela nem conseguia ver o rosto dele.
“Ué, tu não sabe,” ela disse. “Fala alguma coisa.”
O rapaz bufou, frustrado por não ter coragem de mandá-la parar de falar. “Eu gosto de astronomia.”
“Ah, tu gosta dos astros e dos planetas, então?” ela disse, virando-se para ele com um sorriso afoito. “Então me diz, afinal, Plutão é um planeta ou não?”
Ele fez uma careta de desdém. “E isso importa?”
“Ué, se não importasse, eles não teriam mudado o nome, né? Se Plutão era um planeta, e agora não é mais, algum motivo tem.”
“Sim, claro que sim,” ele respondeu. “Tem uma série de características que um paneta tem que ter pra ser considerado planeta, e Plutão não têm essas características. É só isso.”
“Tá, e Plutão é o que, agora, então?” ela disse.
“É um planeta-anão,” ele respondeu. “Plutão não é o único. Tem outros no Sistema Solar, só que eu não me lembro o nome. E não é grande coisa o nome que a gente dá pras coisas; Plutão continua sendo Plutão, e ele não tá nem aí pro nome que a gente dá pra ele.”
“É, mas tem muita gente reclamando disso,” ela disse, sentando-se em uma poltrona vermelha do outro lado do quarto, que ele sequer havia notado.
“Mas aí é porque as pessoas não têm coisa melhor pra fazer,” ele respondeu. “Gente chata que reclama de tudo tem em tudo que é lugar. Tem tanta coisa mais importante pra se preocupar.”
A mulher deu-lhe um olhar fincado. “Tipo o quê?”
“Tipo as pessoas que não têm o que comer, que não têm trabalho e não têm dinheiro,” ele disse. “Tu não acha que isso é mais importante?”
“Eu acho, sim,” ela disse, “mas as pessoas podem se preocupar com mais de uma coisa ao mesmo tempo, tu não acha?”
“Talvez,” ele disse, descruzando os braços, “mas parece que as pessoas só querem alguma coisa sem importância pra ficar reclamando. Eu detesto isso.”
“Mas tu não pode te preocupar com isso, também, querido,” a mulher disse, com um sorriso caridoso. “Se a gente for se incomodar com tudo que os outros fazem, a gente não vive.”
“Que bom que tu consegue fazer isso,” ele respondeu, com um leve sarcasmo.
“Mas tu vê, né? Tu achou que eu não ia me interessar sobre os teus assuntos, e a gente acabou de conversar sobre astronomia,” ela disse.
“Sim, mas foi só sobre Plutão,” ele retrucou, apoiando os braços na cama. “Isso é pouca coisa.”
“Então me fala de alguma coisa grande, então!” ela disse. “Me fala de alguma coisa que tu acha importante.”
O rapaz pensou por um momento. “Bom, tem o fato de que a maioria da matéria que existe no Universo é um tipo de matéria que os cientistas não sabem o que é. Eles chamam de matéria escura.”
“Então como é que eles sabem que ela existe?”
“Porque, se ela não existisse, o Universo não seria do jeito que é,” ele disse. “Eles não enxergam a matéria escura, mas eles observam os efeitos dela.”
“É tipo o vento, então?”
Ele cogitou por um momento, e acenou com a cabeça, hesitante. “Acho que sim. Mas o vento a gente sabe o que é; é o deslocamento do ar. A matéria escura, ninguém sabe o que é.”
“Entendi,” ela disse, ajeitando-se na poltrona. “Isso é uma coisa que eu acho estranho na ciência. Assim, como é que eles podem dizer que uma coisa existe sem poder mostrar que ela existe? Eles dizem, tá, a gente não sabe o que esse negócio é, mas a gente vê o efeito dele. Como é que eles sabem que eles não tão enxergando errado?”
“É, isso pode ser,” o rapaz disse, descruzando as pernas, “mas eles sempre tentam buscar a explicação que faz mais sentido. Se eles descobrem que uma explicação tava errada, eles vão lá e corrigem. Tu sabe que, até uns cem anos atrás, eles achavam que a luz das estrelas chegava na Terra porque o Universo era cheio de éter. Demorou anos até eles descobrirem que não, que o Universo é vazio, e que a luz se propaga no vácuo. De qualquer forma, quando os cientistas perceberam que estavam errados, eles se corrigiram. Isso acontece.”
“Sim, mas isso é o de menos,” ela respondeu. “As pessoas têm que saber admitir quando erram.”
“Tá, e por que as religiões não fazem isso?” ele disse, abrindo os braços.
“Quem disse que não fazem?”
“Ué, várias delas não fazem,” ele disse.
“Tá, mas não são todas.”
“Até pode ser que não, mas tem muita gente que, por causa da religião, fica falando besteira,” ele disse. “A ciência tem que se corrigir quando erra, mas os religiosos dizem que, se a Bíblia fala uma coisa, então ela tem que ser verdade, e ponto.”
“Quantas pessoas tu conhece que fazem isso?” ela disse, com um olhar inquisitivo.
Ele murchou um pouco, encolhendo-se na cama. “Na minha família, tem vários.”
“É mesmo?” ela disse, inclinando-se para frente na poltrona. “Isso te incomoda?”
“Sim, porque daí eles usam a religião deles pra dizer que os outros estão errados, mas eles vão lá e fazem coisa pior.”
“Tipo o quê?”
Ele desviou o olhar, atraído novamente pelo branco estridente do banheiro. “Tipo meu pai, que vive reclamando que tudo é imoral, que tudo é errado, que é pecado ser gay, que a mulher tem que se respeitar, e aí me traz aqui.”
A mulher acenou com a cabeça. “E tu concorda com as coisas que ele diz?”
O rapaz deu de ombros. “Em algumas coisas, ele até tem razão, eu acho, mas, tipo, ele acha que as minhas irmãs têm que se dar o respeito, e quer saber de tudo que elas fazem na rua, mas então… por que ele não fala isso de vocês? Tipo, ele deve achar que o que vocês fazem é certo, senão ele não me traria aqui.”
“E tu acha que é certo?” ela disse.
O rapaz deu um suspiro trêmulo. “Eu sei lá. Eu não sei como é a vida que vocês levam, então eu não posso dizer. Porque assim, se isso é uma coisa que tu quer fazer, isso não devia ser da conta de ninguém, muito menos da minha, ou do meu pai.”
“É o que eu acho, também,” ela respondeu, levantando-se da poltrona. “Eu não gosto quando as pessoas ficam julgando e criticando e falando mal de quem faz o que eu faço. Eu acho que eu não tô fazendo mal pra ninguém, que eu decido o que fazer com o meu corpo, e que ninguém paga as minhas contas ou cuida do meu filho pra poder opinar no que eu faço.”
Ele olhou para ela, surpreendido. “Tu tem um filho?”
“Sim, tenho sim,” ela respondeu, “e eu cuido dele com toda a atenção e todo o carinho que eu posso dar como mãe, e, se eu tô aqui, é pra garantir o sustento dele.”
“E tu não gostaria de poder trabalhar com outra coisa, ao invés disso?”
“Ué, mas eu trabalho,” ela disse, caminhando até o banheiro. “Esse aqui não é o meu único emprego. Quer dizer, agora, nesse momento, é só isso que eu tô fazendo. Mas eu também tô na faculdade, cursando Engenharia Elétrica, e ainda tenho vontade de fazer um curso de pintura.”
Os olhos do rapaz brilharam por um momento. “Pintura, é?”
“Sim, pintura,” ela disse, parada na porta do banheiro. “Tu gosta?”
“Eu adoro,” ele respondeu. “Tipo, eu não acho que eu conseguiria aprender a pintar, mas eu adoro olhar.”
“Qual é o teu pintor favorito?”
Ele suspirou, a mente perdida em um maravilhoso labirinto de cores e imagens que ele acumulara ao longo daqueles anos. “Ah, são tantos… Eu adoro os modernistas. Adoro a Tarsila. Mas são vários, vários.”
“Eu já vi algumas coisas dela num museu,” a mulher respondeu. “É lindo ver ao vivo. Tu costuma ir em museu?”
O olhar dele caiu de novo. “Algumas vezes, só. Eu gostaria que o meu pai me levasse, mas ele acha isso uma bobagem.”
“Mas que pena,” ela disse, sentando-se na cama. “Mas tu tem que aprender a ir sozinho. Tu tem as tuas próprias pernas, não?”
“É que eles sempre querem saber o que eu tô fazendo,” ele disse. “Se eu digo que eu fui num museu, eles dizem que é perda de tempo.”
“Tu tem que mostrar pra eles que isso é importante pra ti, e que, se é isso que importa na tua vida, eles não têm que dar opinião.”
“Ah, e tu acha que é fácil pra mim dizer alguma coisa?” ele retrucou. “Tu acha que eu queria tá aqui? Tu acha que eu não preferia tá num museu, se eu tivesse escolha? Pra mim, isso aqui é que é perda de tempo.”
Ela lhe deu um olhar interrogativo. “A nossa conversa tá sendo uma perda de tempo pra ti?”
“Na verdade, não,” ele disse, olhando para o outro lado, “mas não foi pra isso que ele me trouxe, né? Ele me trouxe aqui pra eu virar homem, mas, pra mim, ser homem não tem nada a ver com isso aqui. Ser homem é ter caráter, é ter cabeça, é ter um futuro, é tratar bem as pessoas. Isso sim é que importa pra mim.”
“E tu acha que sexo é perda de tempo?” ela disse, com uma voz suave.
“Pra mim, é,” ele respondeu bruscamente, cruzando os braços.
“Mesmo com uma pessoa que tu ama?”
“Não tem ninguém que eu ame.”
“Tu nunca teve uma namorada?”
“Não, e isso é problema meu, tá?” ele disse, fincando-a um olhar atravessado. “Quer dizer, nem problema é, eu é que não quero uma namorada só pra eu dizer que eu tenho.”
“Mas não é só pra dizer que tu tem,” ela respondeu, compassiva. “O bom é a gente namorar alguém que gosta de verdade. E, assim, se tu nunca encontrou uma pessoa pra namorar, é uma pena, mas tu não tem a obrigação de namorar ninguém.”
“Diz isso pro meu pai, então,” ele disse. “Tenta convencer ele de que eu tô bem assim, que eu não preciso de uma namorada. Ele é que fica dizendo que não quer filho viado.”
Ela fez uma breve pausa, tentando ler a expressão dele. “E tu não é gay?”
“Se eu fosse, eu tava morto, já,” ele disse, com um pequeno riso frouxo. “Tipo, se eu quiser continuar vivo, é melhor que eu não seja.”
“Teu pai te bate?”
Ele deu um suspiro pesado. “Às vezes, só.”
“Entendi,” ela disse, acenando com a cabeça. “Eu entendo que tu tenha medo, mas tu tem que lembrar que tu não tem que fazer nada só pra agradar teu pai, e nem deixar de fazer alguma coisa só porque ele quer que tu faça.”
O rapaz olhou para ela, com a testa franzida. “Tu tá tentando me convencer a ir pra cama contigo, é isso?”
Ela encolheu os ombros, sorrindo. “Eu é que não. Pra mim não faz diferença. Eu recebo por hora.”
“Ah, melhor,” ele disse. “E tu nem pensa em dizer pro meu pai que a gente ficou só conversando. Aí é que ele me mata de vez.”
“Não, nem te preocupa, eu não vou dizer nada,” ela disse, pensativa. “Mas, assim, se ele perguntar o que a gente fez, a gente tem que saber o que responder.”
Ele lhe deu um olhar preocupado. “Tá, e o que a gente diz?”
“Não precisa ser nada de mais,” ela disse. “Eu digo que eu te chupei, e que depois tu me comeu pela frente, e depois por trás, e que foi gostoso. Só isso. Não precisa de muitos detalhes.”
O rapaz não pode deixar de sentir uma repulsa. “Eu espero que eu não precise falar nada.”
“É, mas, se ele perguntar, é bom que tu fale,” ela disse, “e sem essa cara de nojo.”
“Eu vou me esforçar,” ele disse.
A mulher ficou observando-o por um tempo. “Tu tem certeza que tu não quer fazer nada comigo?” ela disse, consultando o horário no celular. “A gente ainda tem tempo.”
“Não quero nada, não,” ele disse, com um tom suave. “Eu não… conseguiria fazer isso com alguém que eu mal conheço.”
“Mas tu nunca tentou, né?”
“Não, mas é que…” Ele bufou, frustrado. “Eu não vou me forçar a fazer alguma coisa só porque os outros dizem que eu tenho.”
“Eu sei, eu te entendo,” ela respondeu. “Mas assim, se tu tiver te reprimindo de fazer uma coisa que tu queira, que tu tenha vontade, isso também não é bom. E eu tô aqui pra ti.”
Os olhos dele ficaram úmidos, e ele apertou os lábios. “Eu não sei se eu tô me reprimindo ou não,” ele disse. “Tipo… isso faz algum sentido? Eu não deveria saber?”
“Olha, nem tudo é tão simples, querido,” a mulher disse. “É complicado saber o que a gente sente, às vezes.”
“Pois é, sabe, não é que… Eu não quero ficar sozinho pra sempre, sabe?” o rapaz disse, enxugando os olhos. “Eu gostaria sim de ter alguém um dia, mas, tem que ser alguém que eu goste de verdade. Eu queria que o meu pai entendesse que isso não faz de mim menos homem. Sabe, eu não me sentiria homem se eu fosse pra cama contigo, sabendo que o meu pai tá pagando por isso. Isso faz parecer que eu… que eu não tenho capacidade de fazer isso por conta própria, entendeu? Mas, se eu disser isso pra ele…”
“É, eu acho que eu te entendo,” ela respondeu. “Tu acha que, se tu tentar chegar numa guria, tu vai fazer isso só pra agradar o teu pai?”
O rapaz olhou para o chão, pensando por um momento. “Eu acho que sim… Será que eu consigo mudar isso?”
“Consegue, sim,” ela disse, com uma confiança tão tranquila que quase deixou o rapaz perturbado. “Mas isso vem com o tempo. Um dia tu vai sentir que tu é dono da tua vida, e que tu não deve nada pro teu pai. Mas essas coisas nunca são de uma hora pra outra, e nem sempre é fácil. Eu demorei muito tempo até conseguir me livrar dos meus pais e tomar conta da minha vida, mas é porque eu demorei pra perceber que esse era o problema. Depois que eu entendi isso, foi bem mais fácil.”
“E tu tinha medo dos teus pais?”
“Durante um tempo, eu tinha, sim,” ela disse, sem qualquer vestígio de vulnerabilidade. “Mas foi passando, eu fui criando coragem com o tempo. Não é fácil, querido, mas tu precisa pensar que tu tem essa capacidade. Enquanto tu pensar que não tem coragem, vai ser muito mais difícil.”
Ele fez uma pausa, e olhou para ela, com o canto dos olhos. “Mas não é só pensar, né? Entre pensar e fazer, tem uma distância grande.”
“Sim, claro que tem,” ela disse. “Não é só pensar. Mas esse é um começo. É isso que tu precisa entender. Só lembra que nada que o teu pai pense ou fale ao teu respeito vai mudar aquilo que tu é. Por mais que ele diga que tu não é homem, ou que o que tu faça não é coisa de homem, isso não muda nada. Tu tem que ser aquilo que tu é, e ponto. Se tu não quer transar comigo, não transa. Se tu não quiser namorar, não namora. Agora, quando tu sentir que quer namorar, quando tu sentir que quer transar com uma guria, lembra que isso é uma coisa que tu tá fazendo por ti mesmo, e por mais ninguém. Nunca esquece disso.”
O rapaz acenou com a cabeça, e ficou ouvindo o som daquelas palavras ecoar nos ouvidos. Jamais alguém lhe dera um conselho como aquele, e, por mais que isso parecesse uma coisa óbvia de se pensar, escutar essas palavras da boca de alguém fazia uma grande diferença.
“Obrigado por isso,” ele disse, enfim.
“Que nada, querido,” ela respondeu. “Já tô me sentindo melhor em te ver mais leve.”
“Me dá um abraço?”
Ela quase riu. “Mas claro, guri, vem cá!”
Então, a mulher acolheu o rapaz, com toda a suavidade possível, como se tivesse medo de quebrá-lo. Ele parecia fraco, diminuto, mas o abraço dele foi firme, com o vigor de alguma vontade dormente de existir, e a respiração dele era quente, vibrante.
Ainda havia tempo sobrando, então os dois deitaram-se na cama, e ficaram em silêncio. Ele ousou até colocar o braço ao redor dela, apenas para sentir alguma vida pulsante junto a ele. Ela respirava devagar, com calma, aproveitando o momento de tranquilidade em um dia que ainda estava longe de terminar.

domingo, 12 de janeiro de 2020

A Margem do Conforto

Ricardo saiu de casa o mais rápido que pode. A sensação opressiva da casa dos pais, cheia de gente enfurnada e entediada, estava deixando-o louco. Aquele veraneio até então era um desastre: chovia há dias, e o sol recusava-se a mostrar a cara. Naquele dia, a chuva fizera uma breve trégua. O tempo continuava nublado e ventoso, mas a temperatura estava agradável, apenas levemente fresca. Ricardo saiu de casa, apenas para caminhar um pouco.
Ele não conhecia a praia de Rondinha, e estava quase arrependido de tê-la conhecido. Não que o lugar fosse horrível: era uma praiazinha até simpática, pequena porém com alguma civilização. O problema não era a praia em si, e sim a casa. Tudo o que ele queria era sair de lá.
Ele foi andando pela avenida que cortava Rondinha de cabo a rabo, paralela ao mar. Era uma rua eternamente longa e reta, asfaltada. Ricardo só queria saber aonde ela o levaria. Ele foi caminhando sabe-se lá por quanto tempo, até o ponto em que ele nem mais sabia se estava em Rondinha ainda. Por alguma razão, as casas e as ruas transversais pareciam diferentes do que antes. Ele sabia que não era mais o mesmo lugar.
Em um certo ponto, Ricardo decidiu entrar em uma das ruas transversais, na direção contrária do mar. Ele foi seguindo uma rua sem calçamento e sem asfalto, uma simples e larga trilha através da grama. Ele foi caminhando, só para ver onde aquela rua terminaria. A rua, apesar de simples, era longa, e atravessava umas outras três ou quatro ruas transversais. No final, ela parecia terminar em algumas árvores, mas ele foi caminhando.
Para sua surpresa, ele encontrou uma série de dunas, como um pequeno oásis inexplorado no meio da praia. Ele foi caminhando, enfiando os pés na areia fofa, escalando algumas das pequenas dunas. Atrás dele ficava o resto da praia e o mar, e diante dele, apenas árvores. Aquele sim era um lugar diferente.
Ricardo foi subindo uma duna alta, que se erguia orgulhosa no meio das outras. A subida foi árdua, e, na metade do caminho, ele já estava cansado, com areia grudada nas pernas até o joelho. Mas ele continuava. Ele só queria saber como era no topo.
Ao chegar lá, ele teve uma vista bastante empolgante do local. Era possível ver de um lado as árvores que circundavam as dunas, e o vasto campo que se estendia por trás delas, e do outro o mar. Mais curiosamente: ao seu lado, sentado na beira da duna, virado na direção da serra, estava um rapaz sentado.
Não era possível ver muito bem como era o rapaz, pois ele estava de costas para Ricardo. Apenas se podia ver que ele tinha cabelos escuros, ondulados, e costas largas, e que ele estava usando apenas o que parecia ser uma sunga branca. Não dava pra ver mais nada. Ricardo ficou um pouco mistificado com aquela presença ali, mas decidiu aproximar-se, e sem fazer barulho, sentou-se ao lado do rapaz. Ele parecia apenas ignorar a presença de Ricardo.
O rapaz estava abraçado às pernas encolhidas, puxando-as contra o corpo. Ele parecia olhar ao longe, sem muita expressão, como se apenas esperasse algo. Os dois ficaram sentados, em silêncio, por algum tempo. Ricardo pensava em puxar alguma conversa, mas não se sentia muito à vontade com isso. Ele tinha, porém, vontade de saber quem era aquele rapaz, que, pelas feições faciais, parecia ter uma idade parecida com a dele; talvez um pouco mais jovem, perto dos vinte ou vinte-e-pouquinhos.
“Tu gosta da vista aqui?” Ricardo disse finalmente.
O rapaz sacudiu a cabeça. “Eu não vim aqui por causa da vista,” ele disse, com uma voz áspera, grave, talvez um pouco fraca.
Ricardo apenas silenciou, olhando para a serra ao longe.
“Eu tô te incomodando?”
“Não,” o rapaz disse, sem olhar para Ricardo.
“Se eu estiver, eu posso ir embora.”
“Faz o que tu quiser, cara.”
Ricardo não conseguia identificar se aquilo era desprezo, desconforto, ou mera neutralidade. Na dúvida, ele decidiu ficar ali, ainda com vontade de conhecer melhor aquele rapaz e saber por que ele estava ali; talvez fosse pelo mesmo motivo que ele? Ricardo tentava imaginar como ele reagiria se os papéis fossem invertidos. Não dava: era primeiro necessário saber, no mínimo, por que o rapaz estava ali. Aparentemente não era pela vista.
“Tu gosta desse lugar?” Ricardo disse, logo percebendo como era estúpida a pergunta.
“Sei lá,” o rapaz respondeu, cerrando um pouco os olhos. “Eu não tô aqui por isso.”
Ricardo começou a sentir uma certa hostilidade. “Cara, se eu tiver te incomodando, eu posso ir embora.”
“Eu já disse, faz o que tu quiser.”
“Eu só não quero te causar nenhum incômodo,” Ricardo disse.
“Então só não encosta em mim.”
A resposta fora esquisita, apesar de sensata. Ricardo ficou um pouco aliviado por ainda poder falar, e tentar quebrar o gelo.
“Por que eu faria isso?” ele disse. “Tu é bonito, mas a gente nem se conhece.”
O rapaz olhou-o de repente, virando o rosto em um gesto dramático, com o cenho franzido. “Que comentário foi esse?”
“Cara, foi só uma piada, desculpa!” Ricardo disse, erguendo as mãos. “Eu só tô brincando.”
O rapaz sacudiu a cabeça, em um gesto de desdém. “Que comentário escroto esse,” ele disse, em um tom muito menos agressivo do que a frase sugeria.
“Eu fiquei curioso por tu estar aqui,” Ricardo disse.
“E tu não ficou curioso por tu também tá aqui?”
Ricardo riu-se de leve. “Na verdade, sim. Se bem que eu sou curioso por natureza.”
“Então é por isso que tu insiste em falar comigo?”
“Acho que sim,” Ricardo sorriu. “Mas, se tu veio atrás de um pouco de paz e sossego, que nem eu, eu posso ficar quieto.”
“Não foi por isso que eu vim,” o rapaz respondeu.
“Tudo bem. Eu vim por causa disso,” Ricardo disse, “mas um pouco de contato humano nunca me fez mal.”
“Então tu não conhece todos os tipos de contato humano,” o rapaz disse.
Ricardo ergueu as sobrancelhas, surpreso. “É, talvez não.”
Ele fez uma pausa. O rapaz suspirou.
“A natureza é uma coisa incrível, né?” Ricardo prosseguiu.
“A natureza quer nos matar,” o rapaz respondeu.
“Nossa, que coisa negativa.”
“Não é negativo,” o rapaz disse. “É só a verdade. É assim que a natureza funciona: mata os mais fracos pra que os mais fortes sobrevivam. Tu nunca percebeu como esse mundo é inóspito pra nós? Tenta viver por aí, no campo, ao natural, e vê quanto tempo tu dura. Prum cara que nem nós, é impossível. Tem milhares de maneiras diferentes de a gente morrer, uma pior que a outra. A gente só sobrevive no conforto da nossa casa, na nossa cidade, com todas as conveniências possíveis.”
“E mesmo assim a gente tá aqui,” Ricardo disse, “à margem do nosso conforto, diante dessa mesma natureza que quer nos matar.”
O rapaz pensou por um instante. “É.”
“É por isso que tu tá aqui?”
“É,” o rapaz respondeu, reticente.
“Sem roupa?”
“Por que?” o rapaz disse, virando-se para ele de novo. “Tem alguma coisa contra isso?”
“Não, de jeito nenhum,” Ricardo disse, um pouco intimidado. “Pra usar a tua própria frase, faz o que tu quiser.”
“Ah, bom.”
“Eu só achei curioso,” Ricardo disse.
“Isso não é curioso,” o rapaz respondeu. “Tu é que é.”
“Sim, é verdade.”
“Espero que seja só curiosidade mesmo,” ele continuou. “Teu interesse no que eu tô vestindo não tá me parecendo legal.”
“Ei!” Ricardo protestou. “Tá pensando o quê? Que eu tô te assediando?”
“Eu não disse nada,” o rapaz disse.
“É, mas tu tá desconfiado assim. Não precisa suspeitar de mim. Eu tô aqui na boa.”
“Então pra que esse interesse? Não é natural que as pessoas, na praia, fiquem mais à vontade?”
“Sim, claro,” Ricardo disse, tentando apaziguar. “Mas nesse tempo ruim, e todo encolhido…”
“Tá, tá bom,” o rapaz disse, frustrado, esticando as pernas. “Se é isso que tu quer, eu fico bem à vontade.”
Ricardo ficou constrangido por provocar essa reação. O rapaz não estava vestindo sunga, e sim uma cueca, o que deixou Ricardo um pouco mais embaraçado ainda.
“Cara, eu te disse, faz o que tu quiser,” ele disse. “Foi só uma pergunta.”
“Toda pergunta vem de um interesse,” o rapaz respondeu, “e eu não sei qual é o teu interesse em mim, afinal.”
“Cara, desculpa, eu só queria alguém pra conversar um pouco,” Ricardo disse. “Eu tô de saco cheio de ficar enfiado em casa com um monte de gente da família, sem ter uma amizade decente, e, quando eu te vi aí, eu pensei que, talvez, tu estivesse te sentindo sozinho também.”
“Eu tô bem, assim,” o rapaz disse.
“Então, nesse caso, tu não precisa se irritar quando eu te pergunto por que tu veio aqui.”
“Eu já respondi, é pra eu me sentir na margem de não sei o que lá.”
“À margem do conforto?”
“É, isso,” o rapaz disse.
“Então tudo bem,” Ricardo disse. “Talvez a gente possa compartilhar essa ocasião?”
O rapaz deu de ombros. “Pode ser.”
“Pode me dizer o teu nome?”
O rapaz suspirou, resignado. “Marcelo,” ele disse.
“Prazer, eu sou Ricardo.”
Ricardo estendeu a mão para apertar a dele. Marcelo olhou-o por um momento, e apertou-lhe a mão, enfim. “Prazer.”
Os dois viraram-se para frente de novo.
“Então, à margem do conforto?” Ricardo disse, sem saber o que esperar em resposta.
“É,” Marcelo respondeu, com um suspiro.
“Sabe, eu gosto da vista daqui,” Ricardo continuou. “Não é nada de espetacular, ou extraordinário… mas, eu acho, é por isso mesmo que eu gosto. Não tem nada de especial; e por isso mesmo é especial.”
“Que papo louco,” Marcelo respondeu. “Podia passar o baseado, pelo menos.”
Ricardo riu. “Não, eu não fumo.”
“Eu também não,” Marcelo disse, dando de ombros. “Não mais.”
“É mesmo? Por que tu não quis mais?”
“Sei lá. Eu só acho que não é mais pra mim. Acho que eu já vi tudo que eu precisava ver.”
“Tudo, é?”
“Sim, por quê?” Marcelo disse, olhando para Ricardo com uma expressão fechada.
“Sei lá. Isso faz parecer uma experiência tão desinteressante,” Ricardo disse.
“É porque é mesmo,” Marcelo respondeu. “Ou melhor, é porque fica assim depois de um tempo.”
“Nossa… então tá.” Ricardo parou de falar, procurando algum assunto. “Espero que não volte a chover.”
Marcelo apenas deu de ombros. “Pra mim, tanto faz.”
“Sério?”
“Acho que sim, sei lá.”
“Eu queria saber como tu consegue ser tão indiferente,” Ricardo disse.
“Isso ia mudar alguma coisa pra ti?”
“Claro que sim! Eu ia te entender melhor.”
“Não tem nada pra entender.”
Ricardo olhou para ele de novo, em um gesto simbólico. “Eu diria que sim.”
“Melhor pra ti tentar entender a ti mesmo,” Marcelo respondeu.
“Ué, mas eu me entendo!”
“Duvido.”
“Como assim, duvida?” Ricardo retrucou.
“Ora, me explica então o que exatamente tu viu de tão interessante em mim que tá te levando a essa conversa.”
Ricardo coçou a testa. “O que eu vi é que tu parecia ter um interesse parecido com o meu, quando eu te vi sentado aqui.”
“Mas e agora, que tu já sabe que isso não é verdade, qual é o interesse?”
“Bom, eu te acho um mistério,” Ricardo disse.
“Um mistério!” Marcelo repetiu, desdenhando.
“Ué, e por que não seria? Não é todo dia que eu vejo essa cena.”
“Vai, confessa, tu te interessou porque tu achou que, já que eu tô aqui no meio do nada, sozinho, de cueca, eu tô dando sopa,” Marcelo disse. “Tu acha que eu sou viado, né?”
“Cara, alguém que quisesse ‘dar sopa’ não se meteria em um lugar tão remoto,” Ricardo respondeu, “e outra, eu não penso nada a respeito da tua sexualidade.”
“Isso é o que tu diz,” Marcelo retrucou. “E tu, é viado?”
“Isso não vem ao caso.”
Marcelo riu. “A maneira mais evasiva de dizer que sim.”
“Olha, cara, eu sou bi, tá legal?” Ricardo disse, um pouco incomodado. “Mas eu repito, isso não vem ao caso.”
“Claro que sim. É por isso que tu tá aqui.”
“Não, não é,” Ricardo disse, frustrado. “Eu não quero que tu insinue isso.”
“Tudo bem, como tu quiser.”
Os dois fizeram uma pausa.
“É sério, parece que tem alguma coisa te incomodando muito,” Ricardo disse. “Não acho que tu seja sempre assim.”
“Que motivo tu tem pra achar isso?”
“Sei lá, cara; um pressentimento, talvez.”
“Quer dizer, tu só quer acreditar no que é mais confortável pra ti. À margem do conforto. Sei,” Marcelo disse, com um sarcasmo não muito convincente. “Se tu quisesse mesmo ficar à margem do conforto, tu pensaria exatamente o contrário: que eu sou assim mesmo, e que a qualquer momento eu posso dizer alguma coisa que te machuque muito.”
“Tu não me parece capaz de fazer isso,” Ricardo disse.
“Ah, não?” Marcelo disse, olhando para Ricardo, como se o desafiasse.
Ricardo riu-se. “Nossa, parece até que eu é que te machuquei.”
Marcelo virou o rosto para frente, pensativo.
“Eu só acho que, se tu fosse essa pessoa mesmo, tu já teria me machucado.”
Marcelo deu de ombros. “Se tu prefere acreditar nisso, tudo bem,” ele disse, encolhendo as pernas de novo.
“Tu não tá com frio, não?”
“Não.”
“Quem sabe tu não põe a tua roupa?”
“Não quero,” Marcelo disse.
“Ah, cara, qual é?” Ricardo disse. “Vai morrer de frio aí.”
“Eu não me importo.”
Ricardo pausou por um segundo. “Marcelo, na boa, o que foi que te aconteceu?”
“Não te interessa.”
“Cara, é sério, se tu tá com algum problema, compartilha comigo. Esse é o momento.”
“Então compartilha tu os teus problemas,” Marcelo respondeu. “Tu parece mais a fim disso.”
Ricardo pensou por um segundo. “Então tá bom,” ele disse, rapidamente tirando a camiseta e largando-a de lado.
“O que tu tá fazendo?” Marcelo disse, em choque.
“À margem do conforto, lembra?” Ricardo disse, tirando a bermuda e deixando-a de lado também.
Marcelo sentiu seu coração palpitar por um momento, mas logo pensou que era inútil. Ricardo agora estava apenas de cueca, e encolheu-se por causa do leve frio. Marcelo percebia pela primeira vez que ele era bonito, com olhos verdes profundos, rosto saliente e cabelos longos e ondulados.
“Não dá pra te entender,” Marcelo disse.
“Foi tu mesmo que disse que não tem nada pra entender,” Ricardo disse.
Marcelo ficou constrangido, e tentou emendar. “Claro que não. Eu é que não quero.”
Ricardo riu-se baixinho. “Claro que não.”
“Tá, mas já que tu começou com essa palhaçada, vai e me fala dos teus problemas logo.”
“Tudo bem,” Ricardo disse. “Meus problemas. … é, na realidade, eu não diria que eu tenha algum grande problema, sabe?”
“Que bom,” Marcelo disse, sem qualquer sinceridade.
“Mas ainda assim eu tenho. Por exemplo… eu diria, a minha família.”
“Eles não te entendem,” Marcelo debochou.
“Não, até não é isso,” Ricardo respondeu sem perder a pose. “Mas eu não me sinto à vontade no meio deles. É muita gente junta, muito ego, muita aparência. Eu diria que, talvez, eu tenha uns dois primos com os quais eu me dou muito bem e posso passar bastante tempo juntos; mas, quando é muita gente junta, eu não fico bem. É muita abobrinha, sabe?”
“Ah, sim, monsieur Descartes,” Marcelo debochou de novo. “Esses reles maltrapilhos só sabem falar sandices.”
“Sem dúvida, monsieur Diderot,” Ricardo respondeu.
Marcelo olhou para ele, com estranhamento. “Descartes e Diderot não viveram na mesma época.”
Ricardo deu de ombros. “E daí? Eles já morreram!”
“É,” Marcelo disse, olhando para frente, como se admitisse a derrota. “Mas que bom pra ti se esse é o teu grande problema.”
“Bom, eu não sei se esse é o maior deles,” Ricardo disse, apoiando os braços sobre os joelhos. “Foi o primeiro que me veio à cabeça. Tem um monte de parente meu lá em casa, agora, e eu tava de saco cheio de ficar trancado em casa com eles por causa da chuva.”
Marcelo respondeu apenas com um gesto vago.
“Tu tá com a tua família também?” Ricardo disse.
“Não. Tô com uns amigos meus,” Marcelo disse. “Quer dizer, amigos, exatamente, não. A maioria é conhecido de colégio, ou amigo do amigo, ou coisa assim.”
“E tu não quis ficar com eles?”
Marcelo despistou de novo. “É, basicamente. Mas a gente tava falando dos teus problemas.”
“Sim, é verdade,” Ricardo disse, resignado. “Bom, nesse ano eu tenho que começar o TCC. Eu tô meio assustado com isso.”
“Claro,” Marcelo disse, em tom de deboche de novo. “Nada mais assustador que o privilégio de cursar uma faculdade.”
“Epa, eu não disse isso!” Ricardo disse. “Claro que, infelizmente, é um privilégio pra poucos, principalmente em se tratando de uma faculdade pública. Mas nem por isso significa que é fácil.”
“Depende do curso,” Marcelo disse.
“Eu não sei. Eu não conheço os outros.”
Marcelo suspirou, ao perceber que sua curiosidade por Ricardo aumentava. “Tá cursando o quê?”
“Física.”
Marcelo ergueu as sobrancelhas. “Ok, tu mereceu o meu respeito.”
Ricardo deu uma risada. “Porra, é a primeira vez que tu demonstra alguma admiração por mim.”
“Fazer o quê?” Marcelo disse dando de ombros. “Eu admiro quem consegue estudar exatas. Não foi por querer.”
Ricardo sacudiu a cabeça, sorrindo. “Tu tá na faculdade também?”
“Sim,” ele respondeu. “É Letras, antes que tu me pergunte.”
“Ah, é?” Ricardo disse com interesse. “Tu gosta disso, é?”
“Não,” Marcelo retrucou, “é que eu quero passar a vida morrendo de fome, mesmo.”
Os dois silenciaram por um momento.
“Incrível como ninguém entende por que eu decidi cursar isso,” Marcelo disse, em tom de confissão.
“Ué, mas esse não foi o meu caso,” Ricardo disse.
“Ah, sim,” Marcelo retrucou. “A maneira de perguntar pode mudar, mas é sempre a mesma coisa: eu só faço Letras porque eu não tive capacidade de entrar em outra coisa, porque eu não sou que nem os gênios lá da Informática.”
“Por isso que eu perguntei se tu gosta disso,” Ricardo disse, “porque eu achei que fosse esse o caso.”
“A emenda saindo pior que o soneto,” Marcelo disse.
“Vai te foder,” Ricardo respondeu.
Marcelo olhou para ele, chocado, mas aliviou-se ao ver que Ricardo não estava falando sério. Ele riu um pouco. “A primeira coisa realmente sincera que tu disse até agora.”
Ricardo olhou para ele, com uma expressão interrogativa. “Tu não acha isso de verdade, né?”
“Sei lá, foi só uma provocação.”
“É difícil às vezes saber se tu tá falando sério ou se tá só tirando sarro.”
“Eu gosto de te confundir,” Marcelo disse.
Ricardo sacudiu a cabeça, rindo-se. “Que filho da puta.”
“Ninguém mandou vir falar comigo.”
“Ah, não vem com essa! Eu sei muito bem que no fundo tu quer que eu fique aqui,” Ricardo disse. “Agora é a tua vez de falar dos teus problemas. Eu já falei dos meus.”
“O azar é teu,” Marcelo disse.
“Não tem essa, não,” Ricardo insistiu. “Me diz agora o que é que tá te incomodando afinal.”
“Eu não quero,” Marcelo respondeu, em um tom repentinamente alto.
Ricardo fez uma pausa, percebendo que talvez atingisse um ponto sensível. “Cara, tudo bem, não fica irritado,” ele disse. “Olha, quem sabe a gente não vai dar uma volta?”
“Não,” Marcelo disse, com um olhar duro, fixo à sua frente.
“Tem certeza?” Ricardo disse. “A gente pode sair e procurar um lugar pra tomar um café, alguma coisa assim.”
“Eu não quero sair daqui,” Marcelo interrompeu, enfático.
“Tá, tudo bem,” Ricardo disse, dando de ombros. “Foi só uma sugestão.”
Marcelo ficou em silêncio.
“Eu só… Só tô meio preocupado com o tempo,” Ricardo continuou. “Tô com a impressão de que vai chover de novo. É sério, acho que é melhor a gente ir indo.”
“Eu não vou mais sair daqui.”
Ricardo pausou. “Como assim, não vai mais sair? Tu tem que ir pra casa.”
“Não.”
“E vai ficar aí pra sempre? Vai morrer de inanição?”
“Azar.”
“Não, cara, nem pensar!” Ricardo disse. “Vem que eu te levo pra casa.”
“Não faz diferença,” Marcelo respondeu.
“Claro que faz, cara, não diz isso. Tu precisa voltar.”
“Eu só sirvo pra ser odiado.”
Ricardo parou, um pouco chocado. “Eu gosto de ti!”
“Não inventa.”
“Ô, Marcelo, de onde tu tirou isso?” Ricardo disse, virando-se para ele. “Que história é essa de ser odiado?”
“Cara, eu sou viado, entendeu?” Marcelo disso, jogando as mãos para os lados. “É isso que eu sou. Se é isso que tu quer ouvir, então tá aí.”
Ricardo continuou virado para ele, com um olhar terno. “E só por isso tu acha que tu serve pra ser odiado?” ele disse. “Marcelo, tu sabe que isso não é verdade.”
“Vai-te à merda,” ele respondeu. “Tu sabe muito bem que é assim mesmo. Tu nem mesmo é hétero, e devia saber disso muito bem.”
“Ah, cara, eu sei que tem gente que não aceita, não tolera, enfim; mas não é por isso que tu vai te enfiar aqui e não vai voltar pra casa nunca mais! Eu tenho certeza de que tem gente lá que te ama, e não quer que tu vá embora; e, mesmo que isso não fosse verdade, eu repito: eu gosto de ti.”
Ricardo disse isso sem segundas intenções, mas teve que admitir para si mesmo que Marcelo era bastante atraente. Agora, porém, não era o momento para pensar nisso. Marcelo apenas suspirou.
“Vem, cara, eu te levo pra casa.”
“Eu não posso.”
“Claro que pode!” Ricardo disse, preparando-se para levantar. “Põe a tua roupa e vamo lá.”
“Não dá,” Marcelo disse.
“Por que não?”
Marcelo esfregou a testa, como se estivesse exausto. “Eu não sei onde tá.”
“Não sabe onde tá o quê?”
“A minha roupa, animal,” Marcelo retrucou. “Eu não sei onde tá a minha roupa. O que, tu acha que eu gosto de andar de cueca na rua?”
“Mas… mas então…” Ricardo parou, e novamente virou-se para ele. “Marcelo, como é que tu veio parar aqui?”
Marcelo afundou o rosto entre os joelhos, respirando profundamente.
“Cara, o que te aconteceu?” Ricardo disse, com um tom mais grave. “Alguém fez alguma coisa contigo?”
Marcelo apenas bufava entre os joelhos.
“Me conta, cara,” Ricardo insistiu. “Se alguém fez alguma sacanagem contigo, me conta.”
Após uma longa pausa, então, Marcelo ergueu o rosto, e respirou fundo.
“Ontem à noite, o pessoal resolveu sair, e foi prum bar que tem por aqui, que ia ter um negócio de noite. Eu fui junto, mas eu não tava curtindo tanto assim. Eu decidi ir embora, e a casa ficava um pouco longe do bar, e eu tinha que ir a pé.” Marcelo limpou rosto com os braços. “Aí uns quatro caras chegaram perto de mim e começaram a me provocar e me xingar. Eu fiquei com medo, mas não falei nada, só continuei andando, e eles continuaram atrás de mim. Quando eu vi, eles tavam me cercando, e eu tive que parar. Eles começaram a chegar perto, eu já tava com medo. Eu achei que eles iam me bater. Eles me mandaram tirar a roupa, e eu fiz, fiquei assim como eu tô agora. Eu pensei em gritar, mas eu pensei que ninguém ia me ouvir, e eles iam acabar me espancando.”
Marcelo falava tudo olhando fixamente para frente. Ricardo apenas ouvia, em silêncio, com uma terrível angústia que crescia dentro do estômago.
“Aí um deles veio com um galho de árvore, eu acho, alguma coisa assim, e me mandou deitar de bruços no chão. Eu não sabia o que eles iam fazer, então eu fiquei esperando o pior.” Marcelo teve um calafrio, e tentou conter-se, respirando fundo. “O cara batia com o galho na minha bunda, e eles riam, me xingavam. O cara do galho começou a bater forte, já tava doendo, aí ele pegou o galho e começou a…”
Marcelo apertou os olhos, como se tentasse reprimir alguma coisa. “Eu só tentava aguentar, ficar quieto. Eles ficaram assim por um tempão. até que um deles mandou eu me levantar e correr, e eu corri. Eu nunca corri tanto na minha vida. Eles me fizeram correr na direção contrária de casa, e eu fiquei com medo de voltar. Foi isso que aconteceu.”
Ricardo ouvia a história com a boca aberta e os olhos arregalados.
“E o que aconteceu depois disso?”
“Aí eu tive que me encolher em um canto pra tentar dormir. Me meti nos fundos de uma casa, eu acho que tava vazia. Eu só pensava em me esconder, pra ninguém me encontrar. Aí, quando eu acordei, eu só queria ficar longe de todo mundo, de qualquer pessoa. Eu não queria que ninguém me visse, não desse jeito. Aí eu fiquei aqui.”
“Então tu não voltou pra casa?”
“Não.”
“Mas, Marcelo! Os teus amigos devem estar apavorados atrás de ti!”
“Que nada,” ele disse. “No máximo eles devem achar que eu fui dormir na casa de alguém.”
“Eles não tentaram te ligar?”
“Meu celular ficou em casa.”
“Cara, tu precisa voltar pra casa, agora,” Ricardo disse.
“Eu não quero.”
“Marcelo, tu tá louco? Tu tá esse tempo todo sem comer e sem beber nada? Vem comigo, que eu te levo lá.”
“Eu não quero ver mais ninguém,” ele disse. “Eu tô com medo de sair daqui.”
Ricardo suspirou. “Cara, tu não pode ficar assim por causa de uns babacas que te fizeram isso. Tu não pode deixar que eles te afetem.”
“Não são só esses caras,” ele disse. “Tem muito mais gente que faria exatamente a mesma coisa se tivesse coragem. Se até aqui, nesse cu de mundo, isso me aconteceu, imagina em outros lugares? Não, eu não quero mais isso.”
Ricardo baixou a cabeça, transtornado, tentando pensar em outra abordagem. “Eu já apanhei por causa disso, sabia?”
Marcelo deu-lhe uma olhada rápida, curioso, mas logo olhou para frente.
“Foi na época de colégio, ainda,” Ricardo prosseguiu. “Tinha um guri que eu gostava, e eu achava que ele tava me dando mole. Aí um dia eu falei com ele, e contei sobre mim, e descobri que ele não gostava de guris. Eu nem cheguei a dar em cima dele nem nada, a gente só conversou. Só que ele falou de mim pruns outros caras, e eles me bateram na saída do colégio. Eu fiquei muito mal, fiquei dois dias em casa. Depois, eu tinha medo de ir pro colégio. Eu tinha medo que, a qualquer momento, eles fizessem tudo aquilo de novo. Eu achava que eles podiam me matar se eles quisessem.”
“Não precisa inventar história só pra me consolar,” Marcelo disse.
“Tu acha que eu tô inventando, é? Olha isso aqui.” Ricardo mostrou-lhe uma cicatriz perto do olho esquerdo. “Eu carrego isso daqui até hoje. Eu poderia ter feito que nem tu, se eu quisesse,” ele disse. “Mas eu preferi insistir e continuar a minha vida.”
“Que bom pra ti,” Marcelo respondeu.
“Tu também consegue isso.”
“Eu não quero.”
“Mas, Marcelo,” Ricardo insistiu, virando-se para ele. “Vão ser poucos que vão te tratar assim, e outros muitos vão gostar de ti; e alguns ainda vão te amar. Tu não acha que isso vale a pena?”
“Eu não sei. Eu já perdi as esperanças de ser amado por alguém.”
“E se eu te amasse?” Ricardo disse.
“Não, para com isso,” Marcelo respondeu. “Tu nem me conhece. Cai fora. Eu não quero essa pena disfarçada de amor, sai pra lá.”
“Não é pena, Marcelo. Eu não quero só sentir pena de ti e esquecer depois. Eu quero te levar pra tua casa, e só ir embora quando eu tiver certeza de que tu vai ficar bem.”
Marcelo suspirou. “Então tu vai morrer aqui comigo.”
“Não, nem pensar,” Ricardo disse. “Tu vai embora comigo, de algum jeito.”
Marcelo sacudiu a cabeça, sem saber o que dizer. “Desiste, cara.”
“Não, eu não vou desistir. Eu olho dentro dos teus olhos e eu percebo que tu não quer ficar aqui pra sempre. Tu quer continuar vivendo, eu sei!” Ricardo disse. “Mesmo que seja só o teu instinto de sobrevivência, não importa, tu ainda não desistiu. Tu pode achar que vai ser ruim ter que encarar as pessoas depois de ter passado por isso, mas vai ser pior morrer aqui. Eu sei que tu quer alguém que te ame, e é por isso que tu precisa sair e voltar pra casa.”
Marcelo deixou a cabeça cair sobre os joelhos. “Eu não quero passar por isso de novo.”
“Claro que não quer, Marcelo. Mas, se tu ficasse aqui, significaria que aqueles caras conseguiram o que eles queriam. Eles teriam destruído a vida de mais um cara que não é que nem eles. Tu não pode dar essa vitória pra eles!”
“Como se eles se importassem com a minha vida,” Marcelo disse.
“Claro que se importam!” Ricardo respondeu. “Por que tu acha que eles fizeram isso?”
“Foi só pra exercer a superioridade deles.”
“Pois então, tu tem que exercer a tua. A tua vida é muito maior do que qualquer humilhação que tu passe.”
Marcelo olhou para o chão, refletindo.
“Vem comigo,” Ricardo insistiu. “Eu te levo pra casa. Vai pelado mesmo, grande coisa.”
“Tu realmente acha que eu vou me sentir melhor com esse discurso mole?” Marcelo disse. “Tu pode achar que sabe tudo do que eu tô sentindo, só porque tu já apanhou antes. Mas eu não sou que nem tu. Eu não consigo ser assim.”
“Assim como? Tu acha que eu sou um super-herói, ou o quê?”
“Não. Eu só não consigo ser insistente que nem tu.”
“Então tu precisa tentar.”
Marcelo olhou, de relance, para o rosto hipnótico de Ricardo, olhando diretamente para ele. Por um instante ele teve vontade de prender-se naquele olhar e bebê-lo por inteiro, mas ainda faltava coragem.
“Ricardo, vai embora enquanto é tempo.”
“Eu não saio daqui sozinho.”
Marcelo suspirou, olhando para frente. O frio parecia ter aumentado, e o céu já estava bem mais carregado do que antes.
“Cara, se eu sair daqui contigo, eu vou te dever a minha vida,” Marcelo disse. “Eu não sei o que eu poderia fazer em troca.”
“Marcelo, tu tá louco?” Ricardo disse. “Se isso é coisa pra se pensar! Tu não vai me dever nada. A única coisa que tu pode fazer por mim é exatamente isso: voltar pra tua casa. Sem dívida alguma.”
Os dois ouviram um trovão distante. O céu estava armado para a chuva.
“Cara, vamo sair daqui agora, se tu não quer que um raio caia na tua cabeça.”
Marcelo cogitou por um segundo, que pareceu durar mil anos. Em seu íntimo, ele certamente queria sair e ir com Ricardo onde quer que ele fosse. Por outro lado, havia aquele sentimento, uma energia oculta, que queria mantê-lo preso ali, e que ele nem mais sabia o que era. Não é que Marcelo quisesse ficar ali; o querer, por si só, não fazia diferença.
Ele ouviu outro trovão, e algo despertou dentro dele. Havia outra energia que queria arrancá-lo dali. O olhar de Ricardo era intenso, pesado, e ele não estava disposto a ir embora sozinho.
Em um gesto súbito, Marcelo pôs se de pé. Ricardo apanhou suas roupas, aliviado.
Os dois desceram o mais rápido que podiam daquela duna, enchendo as pernas de areia. Antes que eles conseguissem ir longe, a chuva começou a cair.
“Vem, Marcelo, rápido!”
Ricardo tinha um medo terrível que um raio pudesse atingi-los ali, no meio daquela areia. Segurando suas roupas em uma mão, com a outra mão ele tomou a mão de Marcelo e começou a puxá-lo dali. Os dois brigavam contra a areia fofa, enquanto a chuva ficava mais forte, e os trovões multiplicavam-se.
Ricardo e Marcelo conseguiram sair da areia, e passaram correndo por baixo das árvores até chegarem à rua. A chuva tornava-se uma tempestade, e encharcava as roupas que Ricardo ainda carregava nas mãos. Os dois correram pela rua, seminus, molhados e com frio.
“Tua casa fica longe?” Ricardo disse aos berros.
“Fica!”
Ricardo estava assustado, e achava que o melhor seria procurar um abrigo e esperar que a chuva passasse. Já não adiantava parar para vestir a roupa, pois esta já estava encharcada.
Eles já estavam perto da estrada principal, que estava vazia. Nem carros passavam.
“Pra que lado?” Ricardo disse.
“Pra lá!” Marcelo respondeu, apontando para a direita.
Os dois seguiram correndo sob a chuva, enquanto os raios continuavam caindo. Eles já estavam cansados quando encontraram uma loja, ou um mercado, com um longo telhado cobrindo a entrada. Ricardo conduziu Marcelo até lá, e eles se encolheram no chão contra a parede, tentando preservar o pouco calor do corpo. Ricardo abraçou Marcelo, puxando-o contra o seu corpo. Os dois respiravam forte, cansados.
“Vamo ficar aqui,” Ricardo disse. “Acho que ninguém vai se importar.”
A tal loja estava fechada e completamente deserta. As poucas casas, ao redor, estavam todas fechadas. Apenas um carro passou diante deles, na direção contrária à que eles estavam correndo. Ricardo até cogitou tentar pegar alguma carona, mas logo constatou que seria uma péssima ideia.
Marcelo respirava fundo, com o rosto próximo ao pescoço de Ricardo. Eles ficaram abraçados, assim, conservando o calor um do outro.
“Ricardo,” ele murmurou. “Obrigado.”
“Marcelo, por favor, não faz mais isso,” Ricardo disse. “Eu só quero que tu fique bem. Só isso.”
“Eu não quero morrer,” Marcelo disse. “Eu não quero ter que sofrer desse jeito, mas eu não quero morrer.”
“Tu não vai morrer, Marcelo. Tu não precisa morrer desse jeito.”
“Eu não quero morrer. Eu quero ficar contigo.”
Aquela frase escapara da boca de Marcelo. Ricardo lhe deu um olhar terno.
“Vai ficar tudo bem.”
“Eu quero ficar contigo, Ricardo, contigo.”
Os dois olharam-se, longamente, como se tentassem entender aquele momento, e enfim beijaram-se. Algo inexplicável levava Marcelo à beira do êxtase. Ele sentia que poderia entregar-se todo, inclusive seu corpo, às vontades mais íntimas de Ricardo. Era uma insensatez completa, mas os sentimentos são assim às vezes. Marcelo agarrava-o, suas mãos procurando as regiões mais ocultas do corpo dele, puxando-o contra si. Ricardo apertava sua cintura e suas nádegas. Os dois trocavam suspiros e beijos pelo peito e pelo pescoço, até que ambos pararam, interrompidos pelo absurdo da situação .
“Quer saber?” Ricardo disse, afastando-se um pouco. “Tu até que fica um gato assim, todo molhado…”
“Morrendo de frio,” Marcelo disse, irônico.
Ricardo deu de ombros. “À margem do conforto, não?”