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sexta-feira, 11 de junho de 2021

Terapia do Bolinho (fanfiction)

Este conto é um fanfiction da série My Little Pony: Friendship Is Magic, de propriedade da Hasbro, e é uma continuação do conto Pinkie e o Sem Cérebro, publicado anteriormente.

 


Aquele dia começara com a promessa de ser um dia comum e normal, mas as coisas não transcorreram dessa forma. Dainty Tunes saíra da cama de manhã, lento e tonto como de costume, saíra para trabalhar pelo mesmo trajeto de sempre, e a única coisa diferente naquele dia é que ele teria a tarde de folga. Ele foi para casa, pensando em usar a tarde para trabalhar em alguma música nova ou ensaiar as que ele já tinha, pois ele achava que estava ficando um pouco enferrujado.

Mas isso não ocorreu. Ao sentar-se diante do piano, a vontade de tocar estava ausente. Ele não a tinha. Na verdade, ele não tinha vontade de fazer nada. Ela temia admitir, mas isso já era recorrente: seja lá o que ele pensasse em fazer, ele não fazia. Ele passava os fins de tarde em casa, fazendo uma série de pequenos nadas, esperando a noite cair. Ele tentava crer que isso era apenas uma fase, mas estava piorando.

Dainty foi até a janela da frente e pôs um cotovelo no parapeito, repousando a cabeça no casco. O dia parecia tão alegre e cheio de vida lá fora, e ele poderia sair e aproveitar se ele quisesse. Porém, algo fazia isso parecer fútil e sem sentido, e ele não entendia por quê. Não parecia haver um motivo racional para ele se sentir cabisbaixo e desmotivado, mas qualquer coisa que ele pensasse em fazer parecia inútil. De fato, a própria existência dele era inútil.

Talvez fosse isso. Talvez ele fosse inútil. Afinal, por que ele existia? Havia motivo? Ele podia fazer música, mas não havia qualquer sinal de que Equéstria precisasse de sua música. Tudo estava bem daquele jeito. Na verdade, o mundo inteiro parecia bem do jeito que estava, independente dele.

E o que ele poderia fazer? Ficar em casa e lamentar-se? Será que isso não confirmaria a futilidade de tudo? Talvez as coisas não precisassem ser assim.

Um pensamento ficava cutucando-lhe a mente, e ele começava a prestar atenção nele: em momentos como esse, ele bem que podia comer algo gostoso.

Gostoso… como um bolinho.

Não, ele não podia. Ele fizera a promessa: ele ficaria longe delas. Ele precisava evitá-las, senão as coisas poderiam ficar feias. Muito feias.

Mas aí estava o problema: já estava insuportável ficar evitando a tudo e a todos apenas porque algo potencialmente terrível e inimaginável poderia acontecer. Além disso, os Elementos da Harmonia sabiam quem ele era, então não poderia ser tão errado assim se ele falasse com alguma delas. E, se havia um pônei que poderia ter uma conversa sincera e amistosa com ele, era a pônei que o sequestrara, amarrara-o em uma caverna e tentara fazê-lo sumir.

Sim, isso fazia pleno sentido para ele.

*

Ele trotava por Ponyville, sempre com uma sensação de sobressalto quando ele se sentia observado; mas era sempre alarme falso. Os pôneis não notavam nada estranho nele, então estava tudo bem. Ainda assim, ele ficava mais e mais nervoso enquanto chegava perto da Sugarcube Corner, e a única coisa que o mantinha firme em seu caminho era a promessa de bolinhos.

Enfim, ele chegou, empurrou a porta de leve e entrou. O cheiro era tão bom, tão perfeito, que quase fazia-o esquecer-se de seus sentimentos. Quase. Ele olhava a loja, e tudo parecia tão perfeitamente em seu lugar que ele se lembrava de como o mundo estava bem sem ele.

A Srª Cake estava ocupada preenchendo o balcão com alimentos apetitosos, e não pareceu notar que ele se aproximava. Não havia sinais de Pinkie Pie.

— É, olá?

— Olá, senhor! — a Srª Cake disse com um sorriso largo. — Bem vindo à Sugarcube Corner. Você gostaria de dar uma olhada?

— É, sim, claro — ele respondeu, examinando os bolinhos. Eles eram lindos, e ele pensava que, enquanto ele mantivesse o foco nos bolinhos, o desconforto não o atrapalharia. — Esses bolinhos… são de morango?

— São, sim! Feitos hoje pela manhã! — a Srª Cake disse.

— O aspecto tá ótimo. Eu vou querer… quatro deles — Dainty disse, sem conseguir olhá-la diretamente. — Pra levar, por favor.

— Quatro bolinhos de morango para levar, saindo daqui a pouco! — ela confirmou.

Enquanto ela preparava o pedido, a porta da cozinha abriu-se.

— Acabei de colocar uma fornada novinha em folha para assar, Srª Cake! — Pinkie Pie proclamou. — E está na hora do meu intervalo agora… Oh, olá, Dainty Tunes! Que bom vê-lo na nossa loja! Mmm, bolo de morango! — ela disse, dando um salto até ele. — Ótima pedida! Eles estão uma delícia…. modéstia à parte.

— Eu imagino que estão mesmo, Pinkie — ele disse, enquanto recebia seu pedido e pagava por ele. — Obrigado, Srª Cake.

— Ao seu dispor! — ela respondeu. — Volte sempre!

— Então, Dainty, como vão as coisas? — Pinkie disse com um sorriso fixo em seu rosto, enquanto ele guardava seus bolinhos em seu alforje e encaminhava-se rumo à saída.

— Ah, eu, é, eu tô… bem — ele disse, a voz revelando o contrário.

— Tem certeza? — Pinkie disse, a voz dramática e pungente. — Parece que tem alguma coisa te incomodando.

— Ãh, na verdade… — Ele coçou a crina, olhando para a porta. — Eu acho que tem mesmo.

— Que tal se a gente ir lá pra fora e ter uma conversinha com a Pinkie? — ela disse. — Eu tô no meu intervalo agorinha.

O coração dele palpitou. Embora isso era o que ele imaginava fazer quando foi até ali, era chocante perceber que isso estava prestes a ocorrer, ainda mais que a ideia partira dela.

— É, claro, seria uma boa.

*

— Vamos lá, então, bota pra fora, Dainty! — ela disse assim que eles deram a volta no prédio. — O que é que tá te incomodando?

— Bom… eu não sei como é que eu posso explicar — ele começou —, mas a verdade é que… Tá, assim, Pinkie, você sabe quem eu sou. Você sabe o que eu sou, e o que eu represento neste mundo. O problema é que, eu não sei por que eu tô aqui. Até onde eu sei, me colocaram aqui como uma piada, e é isso. — O olhar dele caiu para o chão. — E é isso que eu sou. Eu sou uma piada. Nada mais do que isso: eu sou só uma piada.

— Mas eu gosto de piadas! — ela disse, quase sem pensar. — Piadas são legais! Elas fazem a gente rir e deixam a gente mais alegre!

— Ah, mas essas são as piadas boas — ele respondeu. — Eu sou uma piada ruim, Pinkie.

Ela levou um casco ao queixo. — Bom, eu acho que piadas ruins existem mesmo — ela ponderou. — Mas eu não acho que você seja isso, Dainty! Você é mais do que isso.

— Será mesmo? — ele disse, erguendo o olhar por um momento. — Quer dizer, parece que este mundo está ótimo sem mim. Tava tudo bem, todo mundo tava vivendo bem, e a minha presença aqui… Quer dizer, que diferença faz? Se eu, tipo, desaparecesse do nada, ninguém ia se importar. E eu sinto que eu poderia fazer isso mesmo. Desaparecer. Em um instante, puf, fui, e ficaria tudo bem.

Ela lhe deu um olhar suspeito, meio de lado. — Bem, talvez tenha algo que te faça sentir assim, mas eu sei que você não quer desaparecer. Quer saber como?

Ele olhou para ela, sem dizer nada.

— Você comprou bolinhos!

Dainty sempre soube que o raciocínio de Pìnkie Pie podia tornar-se uma série de ideias desconexas, mas ele nunca imaginou ser confrontado por isso. A reação dele foi apenas encará-la, esperando que ela continuasse. Mas ela não continuou.

— Tá… e?

— Ué, você não percebe? — ela disse, aproximando-se dele. — Se você quisesse mesmo desaparecer, você teria feito isso mesmo, mas não, você não fez! Em vez disso, você pensou, “hm, o que eu queria mesmo agora é comprar bolinhos!” e você veio aqui e fez exatamente isso. — As frases eram rápidas e acompanhadas de gestos e poses, e tudo parecia fazer sentido para ele.

— Então — ela prosseguiu —, o que você quer mesmo é aproveitar a vida aqui, e essa coisa que te faz querer desaparecer só quer te incomodar, mas você pode fazer ela parar de te incomodar! E, claro, nossos bolinhos são uma excelente maneira de afastar os sentimentos ruins, e é por isso que a Sugarcube Corner estará sempre aqui para servi-lo. O cliente vem sempre em primeiro lugar!

Dainty fez uma pausa, como ele demorasse cinco vezes mais para processar aquilo tudo do que ela precisava para falar. Mas ele percebia que ela tinha razão, até certo ponto: ainda havia, dentro dele, uma centelha de vontade de viver e fazer algo bom para si, apesar do temor de que ela estivesse sumindo.

— Talvez você tenha razão — ele disse. A esta altura, ele estava constrangido por ela dedicar tanto tempo e atenção a ele, ainda mais com a sensação de que ele poderia talvez matar toda a energia e entusiasmo dela; embora isso talvez fosse impossível. — Mas não dá pra viver só de bolinho, né… por mais que eu quisesse — ele disse, com uma risada fraca. — Eu só queria… Eu queria ter a sensação de que a minha vida tem algum valor. Às vezes, eu juro, eu… eu sinto que eu não valho nada.

Ele olhou para ela, tentando manter a compostura. — E isso não é só uma coisa de auto-estima. Você sabe o que eu sou. Não é tipo aqueles dias em que alguma amiga sua está triste com alguma coisa que aconteceu e começa a se sentir, sei lá, fraca, incapaz, ou algo assim. Não é isso, porque elas fazem parte deste mundo. Você faz parte deste mundo, e Equéstria não seria o lugar que é se você e suas amigas não estivessem aqui. Vocês são parte do que torna esse mundo tão maravilhoso, e, tipo, eu não sou. Eu fui jogado aqui por alguém que queria se divertir por um momento, e, agora, eu não tenho propósito.

Ele não deixava de notar a expressão dela enquanto ela escutava, os olhos fixos nele, as orelhas empinadas, compreendendo cada palavra dita, porém encarando-o como se houvesse algo óbvio que apenas ele não percebia. Parecia que ela já tinha todas as respostas, e ele apenas não as via porque não tinha procurado muito bem.

— Mas, Dainty! Se você ainda está aqui, é porque quem te pôs aqui ainda te acha importante — ela disse, sem perder a energia na voz, nem por uma sílaba sequer. — Ele se importa contigo! E isso te dá valor! E ninguém aqui te acha inútil. Na verdade, o único pônei aqui que acha que tu não tem valor é…

— Bom, na verdade — ela disse, refletindo enquanto olhava para o céu. — Não é que você pense que não tem valor. É como se alguma coisa na sua cabeça ficasse dizendo no seu ouvido o tempo todo que você não tem valor, mesmo que você tenha, porque é claro que você tem, mas essa voz tenta te puxar pra baixo porque é só isso que ela faz! É a sua voz “pra baixo”, e ela quer te puxar pra baixo porque é a única coisa que ela consegue fazer, porque ela não é você, ela nunca vai ser você, então ela precisa puxar você pra baixo! Não é essa a sensação?

— É, você talvez tenha razão — ele disse, sabendo que ela tinha plena razão.

— E você quer saber o que você pode fazer com essa voz? — ela disse, o ar cheio de tensão dramática.

— O quê?

— Você pode rir dela! — ela respondeu, pulando de alegria algumas vezes.

— Ah, Pinkie, mas eu não consigo — ele disse. — Tipo, você é o Elemento do Riso, é claro que você pode dar risada diante do medo, porque você tem esse poder. Mas eu não tenho…

Ela manteve uma pose estranha, suspensa em pleno ar. — Ei, espera um pouco! Isso não é verdade! — ela disse, aterrissando de pé no chão. — Eu não sou o Elemento do Riso porque só eu tenho esse poder. É meio que o contrário! Eu existo pra lembrar que todo pônei tem esse poder, e eles precisam encontrá-lo dentro de si, do mesmo jeito que eu! Agora, não que isso seja fácil, tá bom? — O rosto dela estava a centímetros de seu nariz enquanto ela dizia isso, seu olhar perfurando os olhos dele. — Você não vai chegar e, “ah, vou rir agora! Tudo resolvido!” Pode ser complicado e pode demorar, mas você consegue, assim como todo pônei consegue, porque você é um pônei que consegue. E, sempre que você achar que eu posso te ajudar, eu estarei aqui.

Dainty pensou nessas palavras por um instante, e começou a soluçar.

— Ei, eu te deixei triste? — ela disse, um pouco insegura.

— Não, não, não é tristeza — ele disse, secando os olhos. — Eu só… É difícil acreditar que você tá… dizendo essas coisas pra mim, porque… só um amigo diria isso.

— Então, meu amigo, você esperava o quê? — Pinkie disse. — Estamos aqui para isso!

— Obrigado, Pinkie! — Dainty disse, tentando ficar mais calmo. — Obrigado mesmo, eu… Obrigado.

— De nada, de nada e de nada! — ela disse, fazendo-o rir por um momento. — Agora, eu queria perguntar uma última coisinha pra você, se você não se importa! Posso?

Ele deu de ombros. — É, claro, sim.

— Como você perdeu o sotaque?

Dainty parou de súbito, o cenho franzido, a mente em disparada. — Eu… perdi?

— Bom, ainda tem um pouquinho bem pequenininho de sotaque lá no fundo, quando eu presto atenção — ela disse —, mas não é tão carregado quanto no início!

— Eu juro que não tinha notado, Pinkie — ele respondeu —, mas, é, isso é… bom?

— Talvez! Não que seja ruim ter um sotaque — ela disse —, mas talvez você esteja mesmo se acostumando com esse mundo, e isso sim é bom.

— Eu acho que sim, Pinkie — ele disse, sorrindo. — Isso… seria ótimo.

— É verdade, meu amigo Dainty! Agora, eu adoraria conversar mais — ela prosseguiu, a voz dela tornando-se mais baixa e mais veloz —, mas o meu intervalo já terminou uns minutinhos atrás e eu já devia estar trabalhando agora, mas!! Não esquece do que eu te falei, não exige demais de você mesmo, e, o mais importante: aproveite os bolinhos! E tá na hora de ir embora agora. Tchauzinho!

E, com um som de ricochete, ela disparou de volta ao prédio. Ele ficou ali, em silêncio, pensando no que acontecera. Ele sempre tivera tanto medo de interferir na vida dos outros, mas, não só ele tivera uma conversa com Pinkie Pie, mas ele sentia que aquilo estava fadado a acontecer. Afinal, o que Pinkie fizera não era nada fora do normal. Essa era a natureza dela. É por isso que ele a admirava, e por isso que ele quisera ir atrás dela. Então, no fim de contas, não havia nada de anormal naquilo tudo. E isso era surpreendente.

Após secar os olhos, ele ergueu o rosto, certificou-se que os bolinhos estavam em seu alforje, e lembrou-se de Pinkie falando da voz em sua cabeça. Ele quase podia escutá-la como se fosse a voz de outrem, e sua única reação foi rir, por um momento.

— É… talvez eu consiga mesmo fazer isso.

E assim, ele voltou para casa, assobiando uma melodia qualquer.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Pinkie e o Sem Cérebro (fanfiction)

Este conto é um fanfiction da série My Little Pony: Friendship Is Magic, de propriedade da Hasbro.

 

Ela pediu que elas fossem “discretas”. Vinda de Pinkie Pie, tal ordem era difícil de obedecer.

Ainda assim, elas percorriam a floresta, fazendo esforço para não perguntar por que; afinal, elas descobririam em breve, então que diferença faria? Enquanto elas prosseguiam, Applejack não conseguia deixar de notar que Pinkie navegava as curvas e dobras da floresta como se ela improvisasse o caminho na hora, ou como se a floresta abrisse tais caminhos de acordo com os caprichos dela. Twilight Sparkle prosseguia logo atrás de Pinkie, e as outras seguiam em fila, com Rainbow Dash por último, observando a todas. Rarity preocupava-se com os galhos que ameaçavam prender-se a sua crina, enquanto Fluttershy torcia que elas chegassem ao seu destino o quanto antes, pois o silêncio e a escuridão de seus arredores deixavam-na desconcertada.

E agora, elas encontram-se bem ali, na entrada de uma caverna.

— Vamos lá! Sigam-me! — ela sussurra alto.

Twilight, quase por instinto, lança uma luz mágica, e elas caminham devagar, ouvindo a reverberação de seus cascos contra o chão rochoso. Pinkie lidera, seu rosto determinado oculto das outras. Twilight tem a ânsia de perguntar o que as espera, mas ela se contém.

Enquanto elas se aproximam de uma curva, elas veem um pouco de luz vindo por trás da quina. Pinkie dá uns passos rápidos adiante, e finalmente vira-se para as outras.

— Lá está ele! Vejam!

As outras cinco pôneis fazem a curva, mas ainda é escuro demais para distinguir o que está lá, apesar das velas que cintilam debilmente no ar úmido da caverna. Applejack é a primeira a ver algo estranho. De início, ela não crê, mas ele está lá: um pônei da terra, vendado e amordaçado, amarrado a uma cadeira. Ele começa a debater-se, provavelmente porque ouve a presença delas, sua pelagem cinza-clara-quase-branca refletindo a luz das velas e da magia de Twilight; sua crina castanha, grossa e crespa, trepidando com seus movimentos.

Os olhos das cinco pôneis arregalam-se em sequência, e elas finalmente sobressaltam-se.

— Pinkie! — Twilight diz, sua voz alta repicando nas paredes. — O que é isso?

— Calma, meninas, calma! Eu posso explicar tudo! — Pinkie responde, seus olhos cerrados, a pata direita erguida com convicção.

— Uai, ocê… cê num sequestrô esse pônei aí, né? — Applejack diz.

— Bem, eu trouxe ele aqui, não exatamente com a permissão dele — Pinkie responde, segurando o queixo, ponderando os fatos. — Mas sequestrar? Isso seria terrível!

Fluttershy sentiu um aperto no estômago. Ela conseguia ouvir o pônei gemendo na cadeira.

— Pinkie, isso é péssimo! — Twilight retruca, seu chifre cintilando com uma mágica nova. — A gente não pode deixar ele assim!

— Não, não! Não faça isso! — Pinkie grita, pulando na frente do pônei, as patas dianteiras estendidas, como se isso pudesse bloquear a mágica. — Isso seria um erro gravíssimo!

— O que poderia ser mais grave do que amarrar um pobre pônei inocente em uma caverna isolada, e trazer-nas aqui para assistir? — Rarity diz. A dignidade em sua voz dava quase um glamour àquela cena.

— Inocente? — Pinkie franze o cenho. — Moças! É isso que eu tô tentando dizer! Aquele pônei — ela disse, apontando —, não é um pônei qualquer! Aquilo… é uma auto-inserção!”

O jeito que Pinkie diz isso dá a impressão de que ela vê uma câmera dando um close dramático no rosto dela.

Os outros pôneis piscam os olhos, em silêncio.

— Uma o quê? — Fluttershy diz.

— Auto-inserção? — Rainbow Dash diz. — Eu nunca ouvi falar nisso antes!

— Ocê pode explicá pra nós, Pinkie? — AJ diz.

— Vocês não sabem o que é isso? — Pinkie Pie diz, em real descrença. — Bem! Eu não sei exatamente de onde essas coisas vêm, mas, todas as vezes que eu encontrei algum, eles estavam aqui para aprontar! Eles vêm do nada, agem de forma estranha, dizem coisas estranhas, todo pônei parece cair de amores por eles, e, eu não sei como, mas eles fazem os pôneis agirem esquisito! Eles dão medo!

O pônei atrás dela parece gemer mais alto agora.

— Mas, se essas coisas existirem mesmo, como você sabe que ele é um desses? — Twilight diz, tentando manter-se racional.

— Ora, cara amiga Twilight, meu Sentido da Pinkie não falha nunca: um fisgadinha na ponta da pata esquerda, e duas fisgadinhas na pontinha do nariz, e é assim que eu sei! Inclusive, está fisgando agorinha mesmo! — ela diz, apontando para o nariz com a pata esquerda. — Vocês estão vendo? Bem aqui!

— Eu num sei se dá pra enxergá fisgadinha, não — Applejack diz.

— Certo que ela consegue enxergar, sei lá como — Rainbow Dash responde.

— Mas o que você espera que façamos? — Rarity diz, em elegante perplexidade. — Por que você nos traria para cá, afinal?

— Eu não sei como dizer isso — Pinkie proclama dramaticamente —, mas temos que fazer ele desaparecer.

— Desaparecer? — as cinco respondem, quase em uníssono.

O prisioneiro quase derruba a cadeira.

— Meninas, eu tô meio enjoada — Fluttershy interrompe, sua voz ainda mais suave que o de costume.

— Sim! Desaparecer — Pinkie insiste. — Nós não podemos permitir que essas coisas perambulem por Ponyville.

— Pinkie! — Twilight diz, dando alguns passos à frente. — Se você quer que a gente acredite em você, você precisa nos deixar falar com ele primeiro.

— Mas, Twilight! Isso é perigoso! Eu disse que eles fazem a gente agir esquisito! Eles fazem eu agir esquisito!

AJ franze a testa. — Pinkie Pie, ninguém precisa te fazê agí esquisito — ela diz. As outras acenam com a cabeça.

— Nãnãnão! Eu não digo esquisito do tipo Pinkie! Eu digo esquisito do tipo bizarro! Um tipo esquisito de esquisito!

— Eu tenho que concordar com Applejack — Twilight diz, diplomática. — Isso tudo já é estranho, portanto precisamos falar com ele.

Pinkie Pie suspira e balança a cabeça, sua fofa crina ecoando o gesto. — Vocês estão cometendo um erro, e depois não digam que eu não avisei!

As quatro pôneis sequer titubearam; exceto por Fluttershy, que estava titubeando desde que ela chegou ali.

Pinkie dá a volta no pônei e desata sua mordaça, suscitando um súbito engasgo e uma sequência de berros:

— aaaah, puta merda! Caralho, puta que pariu, que porra é ess--

Então, a venda cai de seu rosto, e, na ânsia de abrir as pálpebras, a luz arde em seus olhos e ele as fecha de novo.

Aos poucos, ele reabre os olhos, e, assim que ele vê os seis rostos diante dele, sua reação é nula.

Ele apenas fica ali, o queixo caído, os olhos congelados em um tipo de horror que não é mero horror; é um tipo estranho de fascínio, ou pelo menos é o que Rarity presume.

Depois de longos segundos de um silêncio incômodo, Twilight dá um passo adiante. — Ãh, olá?

O pônei respira fundo, quase com dor, e faz esforço pra falar. — É, tipo… é vocês mesmo? Quê que tá…

— Ele parece estar em choque, Twilight! Pobre moço — Rarity diz, pondo-se perto dele. — Não fique com medo! Estamos aqui para ajudar.

Ele viu Pinkie Pie sacudindo a cabeça, mas ele não conseguia reagir a nada.

— Ai, meu deus, eu… quer dizer, por Celéstia, eu… eu tô aqui mesmo? Isso aqui é Ponyville mesmo?

— Estamos na floresta Everfree, na verdade — Twilight responde —, mas quem é você?

— Ãh… eu… é, tipo, vocês são as Mane S-- quer dizer, ãããh, vocês são os Elementos da Harmonia, né?

Quanto mais ele falava, mais as seis pôneis notavam um sotaque incomum na voz dele, que nenhuma delas reconhecia: aquele “meãsmo”, aquele “néãm”, não eram nada familiares.

— É isso mesmo! — Rainbow Dash responde, quase fazendo uma pose.

— Sim, mas, e você? — Twilight tenta de novo. — Qual é o seu nome?

— Meu nome — ele diz, fazendo uma pausa, como se tentasse lembrar. — Eu sou o Dainty… ai, porr-- Eu sou Dainty Tunes, e… é, é isso.

— Bem, é um prazer imenso conhecê-lo, Dainty — Rarity diz —, e eu peço mil perdões por você estar nessa condição. Talvez, se nós nos conhecermos melhor, poderemos consertar essa situação horrível.

— Meninas! Vocês não sabem o que estão fazendo, não é mesmo? — Pinkie finalmente diz.

— Pinkie! — Dainty grita, exaltado. — Me tira daqui, por favor?

A pônei rosa desfere-lhe um olhar chocado. As outras cinco viram-se para ela. — Como é que… você sabe o meu nome? Eu nunca me apresentei pra você!

Dainty gagueja por um momento. — É que, ãm, todo mundo aqui te conhece, né? Tu é tri conhecida, e tal.

— Bom, isso é mesmo — Applejack diz. — Num tem ninguém que num conhece a Pinkie.

— É! É isso mesmo! — Dainty diz com urgência. — Tu é, tipo… uma pônei tri querida, e, tipo, por isso que eu, é, isso.

— Eu não tô convencida, não! — Pinkie retruca, aproximando-se dele, o que o faz encolher-se. — Então, a sua marca especial — ela diz, inspecionando-a de perto: uma clave de sol em uma pauta, seguida de três colcheias —, você faz música, então?

— É, sim, eu faço, é — ele diz —, eu faço… canções. Canções meigas. Dainty Tunes, né, é isso.

— Quais são as tríades do campo harmônico de Lá bemol maior? — Pinkie interroga, as sílabas voando tão rapidamente que ele mal consegue entender.

Ele fica com os olhos vidrados por um momento, sem conseguir pensar. — … é, Lá bemol maior, Si bemol mai-- não, menor, menor; Dó menor, Ré bemol maior, Mi bemol maior… Fá menor, e, é, Sol diminuto?

— Qual é a diferença entre Sol menor natural e Sol menor harmônica?

Dainty pensa por um momento, um pouco menos amedrontado. — Na primeira, o Fá é natural, e, na segunda, é sustenido? Não? Não, é isso, sim.

As pôneis lá atrás trocam olhares, ainda mais perplexas do que antes.

— Qual escala eu posso usar sobre o acorde Lá aumentado? — ela diz, com um olhar incisivo.

— É… qualquer uma que tu quiser, Pinkie! — ele disse, dando de ombros.

Os olhos dela ficam arregalados por um instante. — Correto! Hm, você é o primeiro que me dá a resposta certa pra essa pergunta.

— Que foi qui acabô de acontecê aí, afinal? — Applejack retruca, ajeitando o chapéu.

— Só estava checando se ele é mesmo da música, ou se é só fingimento — Pinkie explicou didaticamente. — Então! Se você escreve canções, que tal se você cantar uma delas para nós? — ela diz, com súbito drama.

— É… cantar? Bom, tipo…

Ele toma fôlego, mas logo começa a gaguejar e engasgar-se. Os olhos dele vão de um lado ao outro, e os olhares confusos nos rostos das outras pôneis deixam-no ainda mais nervoso. Enquanto ele tenta concentrar-se e parar de tremer, ele começa:

“Sai daí… O que tu pensa que vai conseguir…”

— Nada mal — Rarity diz, olhando para Twilight de relance.

Pinkie analisa cuidadosamente a canção, e começa a marcar o pulso com a cabeça, como se aprovasse-a. De súbito, então, ela começa a cantar junto:

“E pra quê? Se ao menos tu fosse um fracasso…”

As outras cinco assistem, sem reação, enquanto a cantoria fica mais e mais entusiasmada. De repente, Pinkie balança um isqueiro aceso sobre a cabeça:

“Preguiçoso e invejoso, o Cínico Meigo! Deixa de ser burro, te põe no teu lugar!”

— É, Pinkie? O que você tá fazendo? — Rainbow diz.

Do nada, os dois param de cantar. Os olhos de Pinkie arregalam-se, a pose dela congelada.

— Eu… eu comecei a cantar uma canção que eu nunca ouvi antes? — ela diz, jogando o isqueiro longe. — Vocês estão vendo? Isso é esquisito demais, até pra mim!

As pôneis dão de ombros. — Não que tenha como a gente saber — Fluttershy diz.

— Está bem, amigas, vamos manter o foco aqui — Twilight diz, virando-se para as outras pôneis. — Não podemos deixá-lo amarrado nessa cadeira sem motivo. Isso não está certo!

— Isso sim, mas a gente devia tentá conhecê melhor esse tal de Dainty aí — Applejack diz.

— Não seria má ideia — ele disse para si mesmo, antes de tossir e pigarrear alto. — Não, bah, certo! Certo, sim, a gente devia sim. Vamo lá.

Applejack fez uma pausa antes de prosseguir. — Então, parceiro, ocê é novo por aqui, né não? Cê vem daonde?

Dainty olha de um lado para o outro, nervoso, pensando. — É… Manehattan.

— Mesmo? — Pinkie diz, cética. — De qual parte de Manehattan?

Ele engole em seco. — Como assim?

— Manehattan é um lugar imenso — ela prossegue, avançando contra ele. — De qual região você é?

Ele estremece ao olhar para ela. — Da região norte?

— Região norte! — ela retruca, virando-se para as outras. — Dá pra acreditar?

— Pega leve aí, Pinkie — Applejack diz, passando diante dela para aproximar-se do pônei amedrontado. — Dá um tempo. Então, ocê veio fazê o que aqui?

— Bom, eu… eu vim fazer música.

— Você quer ser músico em Ponyville? — Rarity intervém. — Pois você teria uma chance bem maior em uma metrópole badalada, em vez do nosso humilde povoado.

— Mas e tu, Rarity? — ele diz. — Tu não teve que sair daqui por causa da tua carreira!

Ela pausa, olhando para as outras, antes de virar-se para ele de novo. — Você conhece o meu trabalho?

— É, tipo, claro! Eu… te admiro como artista, sabe.

— Oh, que lisonja, querido! — ela responde.

— Não! Rarity, não cai nessa! — Pinkie interrompe, correndo até ela. — Você não acha isso suspeito? Ele conhece você, sabe seu nome, sabe o meu nome, mas ele não sabe nem dizer de onde ele vem! Você acha que pode confiar nele?

— Pra ser sincera, ele é meio suspeito, mesmo — Rainbow Dash diz.

— Mas e se ele estiver só um pouquinho nervoso pra falar? — Fluttershy sugere, dando alguns passos inseguros na direção dele. — Quem sabe ele não se sente melhor se a gente desamarrar ele…

Pinkie Pie salta na direção dele. — Não! Não façam isso! Se a gente soltar ele, ele pode provocar o caos na vida de todo mundo!

— Uai, se ele pode fazê isso, por qui é que ele não faz isso agora? — Applejack diz.

— Amigas, amigas! — Twilight Sparkle diz, pondo-se diante das outras cinco. — Eu acho que devíamos fazer uma votação.

Pinkie joga-se no chão. — É o fim!

Twilight vira os olhos. — Enfim, quem é a favor de soltá-lo?

Ela ergue uma pata, juntamente com Fluttershy e Rarity.

— E quem é contra?

Applejack e Rainbow Dash trocam olhares e levantam a pata. Pinkie, que cobre o rosto com uma pata, ergue a outra o máximo que pode.

— Bom, isso não ajudou em nada — Twilight diz, suspirando.

— É isso que dá querê sê democrática demais — Applejack retruca.

— Meninas, deixem que eu faça uma última pergunta para ele, que tal? — Pinkie diz, levantando-se do chão. — Se isso não fizer vocês mudarem de ideia, vocês podem fazer o que quiserem com ele.

— Aí eu já gostei — Dainty murmura para si mesmo, e disfarça, pigarreando.

Twilight dá de ombros. — Tá bom.

Pinkie volta-se para ele, que agora está encolhendo-se e tremendo. — Seu sotaque. De onde é?

Ele congela por um instante. — Meu sotaque? Bah, é…

— É um belo sotaque, querido, não leve a mal. Mas eu afirmo, eu nunca ouvi outro pônei falar como você — Rarity diz —, e eu já conversei com pôneis de muitos lugares de Equéstria.

— Quem sabe não é um sotaque, mas um jeito pessoal de falar? — Twilight diz.

— Isso! É, tipo isso, né.

— Mas essas gírias? De que região isso é? — Fluttershy diz às outras. — Eu não as reconheço.

— Poderia ser o sotaque de Fillydélfia — Pinkie diz.

— É isso! — Dainty diz. — Isso mesmo.

Pinkie volta-se e aponta para ele, de pé nas patas traseiras. — A-há! Eu te peguei! Esse sotaque não é de Fillydélfia!

— … não? — ele choraminga.

— Você é uma auto-inserção!

— Tá bom, eu confesso! — ele grita. — Eu sou uma auto-inserção! Uma auto-inserção idiota, ridícula e sem sentido. Tu tem razão. Tu… vocês têm razão de ficarem bravas comigo.

— Nós não estamos bravas, amigo — Fluttershy diz.

— Eu sim! — Pinkie retruca. — Ele mentiu para nós! Ele nos enganou!

— É, eu tô com ela — Rainbow Dash diz, irritada.

— Mas por que essas auto-inserções são tão ruins? — Fluttershy diz. — O que são elas?

— São seres desconhecidos, originários de uma dimensão paralela, que se passam por pôneis em Equéstria e vivem uma vida diferente — Twilight explica. — Às vezes eles são a causa de distorções e anomalias no nosso mundo. Eles também são chamados de OCs.

— Original Characters — Dainty diz.

— Êpa, peraí — Applejack diz. — Cê sabia disso, Twilight? Cê sabia desde o começo?

— É claro. Eu já li a respeito, mas eu nunca vi um ao vivo.

— Bom, agora tu já viu, Twilight — Dainty diz, sua voz coberta de vergonha.

— E como é que a Pinkie sabe? — Rainbow diz.

— Por que é que ela não saberia? — ele responde. — Ela é a Pinkie Pie.

— O que você sabe a meu respeito, moço? — ela retruca, irritada.

— Bom, bastante, na verdade — ele diz, olhando para o chão, sem conseguir encará-la. — Mesmo eu vindo de uma dimensão diferente, a gente tá… conectado, de certa forma, dá pra se dizer. E eu admiro tudo em ti, e, por mais que esse seja um jeito… esquisito de te conhecer, eu tô grato por poder falar contigo. Tu é… genial.

Ela dá um sorriso breve antes de forçar uma carranca. — Não venha com conversa mole para cima de mim, rapaz! — ela diz. — Eu nunca vi uma auto-inserção que não causou bagunça por aqui.

Twilight franze a testa. — Quantas você já viu, Pinkie?

— Ela deve ter sequestrado todas elas — Rainbow responde.

— Que bobagem, claro que não! — Pinkie diz. — Elas às vezes vêm e vão, sem vocês verem. Mas eu vejo.

— Mas OCs não são todos ruins, eu juro! — ele diz. — Não é verdade, Rarity?

Ele pára de respirar, percebendo que fez algo muito errado.

Rarity dá uma olhada nervosa para as amigas. — Ãh, moi? Por que eu saberia disso, querido?

— É… porque tu é o Elemento da Generosidade, não é? — ele diz, estremecendo. — Tu é o tipo de pônei que saberia disso. E a Fluttershy, o Elemento da Gentileza, saberia melhor do que qualquer pess-- qualquer pônei. Por isso vocês queriam me soltar… Não que as outras sejam ruins, né, claro que não! Vocês são ótimas, todas vocês, eu só… é, esquece.

— Então, por que você está neste mundo? — Twilight diz.

— Na real, eu nem sei — ele responde. — Eu acho que… que eu queria saber como é passar por aqui, nesse mundo. Eu não queria nem conhecer vocês em pess-- é, em pônei, no caso, mas eu… eu ia ficar longe de vocês, ver as coisas à distância, e então, de repente, ir embora sem deixar rastro, tipo, fui. Tchau, radar, vamos adiante… Peraí, eu citei Engenheiros? Desculpa, gurias, eu sou um filho da p-- um tolo.

As pôneis trocam olhares confusos por um momento.

— Então, Pinkie — Rarity diz —, não havia motivo nenhum para isso tudo.

— Ah, não ponham a culpa nela, não — Dainty intervém. — Ela tem métodos… não ortodoxos, mas ela tinha razão pra suspeitar. Eu entendo ela. Ela é uma pônei maravilhosa, e eu jamais ficaria bravo com ela.

— Sim, sim, mas eu te devo um pedido de desculpas, mesmo assim — Pinkie diz, finalmente dando-lhe um olhar amistoso. — Desculpa por ter feito isso com você. E desculpa por ter assustado vocês, amigas. Eu vou ter cuidado da próxima vez… e eu não vou sequestrar ninguém.

— Certo, mas a gente vai fazer o que com ele? — Rainbow diz. — A gente pode confiar nele?

— Olhem só, meninas, eu faço uma promessa. Eu nunca, nunca vou interferir na vida de vocês. Eu nunca vou fazer nada que possa criar problema pra ninguém, seja em Ponyville ou em outro lugar. E, se eu algum dia fizer uma besteirinha que seja, eu vou embora pra sempre; e, se eu não for, vocês dão um jeito de se livrar de mim do jeito que for. Eu não sei se a minha palavra vale muita coisa, mas é tudo que eu tenho.

— É uma promessa da Pinkie? — a pônei rosa cobra.

— Sim, promessa da Pinkie! — ele diz de pronto. — Eu juro e… como é que é, mesmo?

— Eu juro e prometo colocar um bolinho no olho esquerdo! — ela diz.

Ele recita a promessa, com certo gosto. Ela sorri para ele.

— Então, o que dizem, meninas? — Twilight diz.

— Está bem, soltem ele — Pinkie diz. — Mas eu vou ficar de olho em você, ouviu?

— Eu sei, Pinkie — Dainty sorri.

Então, com uma mágica simples, Twilight desfaz os nós das cordas, e Dainty Tunes salta da cadeira, esticando as patas e o pescoço, quase em desespero. — Ai! Ah, obrigado, obrigado! Eu tava ficando maluco sem conseguir me mexer… Obrigado mesmo!

— Não tem de que, Dainty — Twilight responde. — Mas lembre-se da sua promessa.

— Claro! — ele responde, os olhos arregalados. — Eu sei o que acontece quando alguém quebra uma promessa da Pinkie… Ah, e… posso fazer um pedido? Podem dizer pro Spike que ele é demais e ele é maravilhoso e eu sou fã dele?

Twilight faz uma carranca. As outras trocam olhares.

— Vai embora, tá bom?

— Claro! Claro — ele diz e sai correndo imediatamente, quase tropeçando na primeira curva.