sexta-feira, 18 de junho de 2021

A Manada de Ponyville. Faixa 2: L'Avventura


Dainty Tunes tinha organizado tudo. Ele estava sentado na estação de trem, o coração palpitando, nervoso. Ele lia seu livro para tentar ficar calmo e fazer o tempo passar, mas ele era perturbado por pensamentos ansiosos. Aquela era mesmo uma boa ideia? Fazia algum sentido viajar para uma cidade tão grande por causa de uma banda, considerando que ele poderia não encontrar nada? Ele devia mesmo ir sozinho? Ele teria dinheiro suficiente?

O trem chegou ruidosamente à estação, e ele fechou o livro e pôs-se de pé. Ele misturou-se aos outros passageiros que embarcavam, encontrou um assento vazio e sentou-se, respirando fundo. Algo em sua cabeça dizia que aquela ideia era ridícula.

Ele tentava ignorar esse pensamento e abriu o livro de novo. Ele lia as histórias de outras bandas, algumas com histórias semelhantes à da Tropa da Cidade, outras com origens surpreendentes. Ele até encontrou a história de uma banda que veio da própria Ponyville, com o curioso nome de Engenheiros de Seaward Shoals. Ele também leu coisas sobre bandas famosas e interessantes formadas na cidade de Seaddle, algumas com destinos bastante trágicos. Dependendo de como fossem as despesas dele, ele poderia procurar alguns discos dessas outras bandas.

O coração dele começou a bater forte ao ver que ele estava chegando perto de Manehattan: aquela paisagem de prédios era tão imponente. A mente dele se encheu de pensamentos que diziam que era uma péssima ideia, da qual ele se arrependeria totalmente.

 

Ao sair da estação, firme com sua bagagem, ele tinha apenas um pensamento em mente: achar um lugar para ficar, que coubesse em suas finanças, e que não fosse muito medonho. Ele precisou perambular bastante, mas teve sorte de deparar-se com uma pousada barata, porém charmosa, da posse de um casal um pouco idoso. A senhora atrás do balcão tinha pelagem rosada e uma bela crina grisalha, com um penteado à moda antiga, e usava óculos com lentes retangulares. Seu marido, ao lado, um garanhão calvo com crina castanha e pelagem acinzentada, consultava alguns livros escritos a casco. A entrada da pousada tinha uma mobília e decoração clássica e aconchegante, o que combinava bem com a aura gentil que o casal exibia.

— Boa tarde — Dainty disse, aproximando-se do balcão e colocando sua mala ao lado.

— Ora, bem vindo, filho! — a senhora disse. — Como vai você?

— Eu vou bem. — Dainty tentava disfarçar o nervosismo e a incerteza de explorar aquela cidade imensa e complicada. — Então, vocês têm algum quarto vago?

— Temos, sim, querido! Você vai ficar por quanto tempo?

— Quatro dias. Eu vou embora na quinta.

— Certo, deixe-me verificar aqui — a senhora respondeu, ajeitando os óculos e consultando o livro de reservas diante dela.

— Você parece nervoso, filho — o velho garanhão disse. — Está tudo bem?

Os olhos de Dainty arregalaram-se um pouco. Ele não imaginava que seu estado fosse tão aparente. — Ah, sim, eu… Está tudo bem, sim, é que… Essa é a minha primeira vez aqui em Manehattan, sabe? É uma… cidade muito movimentada, e tudo.

— Você é de onde, meu bem? — a senhora disse, enquanto anotava algo no livro.

— Eu sou de Ponyville.

— Ah, eu conheço Ponyville — ela respondeu com afeto. — É um lugarzinho tão simpático.

— Realmente — Dainty disse com um sorriso desajeitado. — A propósito, antes que eu me esqueça, eu não ouvi o nome de vocês…

— Eu sou Warm Breeze — a senhora disse, levantando o rosto —, e este é meu marido, Silvery Light.

— É um prazer conhecê-los. Eu sou Dainty Tunes.

— O prazer é nosso, Sr. Tunes — Silvery Light respondeu.

— Então, ele vai lhe mostrar o seu quarto, então siga-o, por favor — Warm Breeze disse, entregando as chaves ao marido. — Tenha uma boa estadia!

— Obrigado! — Dainty respondeu, atrapalhando-se ao pegar a mala. — Muito obrigado!

Ele foi atrás de Silvery Light, que seguiu pelo corredor, e parou na segunda porta à direita. Ele abriu a porta, e deu espaço para Dainty entrar.

— O quarto é este aqui — ele disse. — Desejamos que sua estadia seja agradável.

— Ela vai ser, sim — Dainty respondeu, recebendo a chave. — Muito obrigado!

O velho voltou ao saguão, e Dainty entrou no quarto. Ele era pequeno, com uma cama de solteiro, um roupeiro, e uma mesinha com um abajur. Aos pés da cama, havia uma planta em um vaso. O quarto era perfeito para ele, afinal, ele não desejava nada luxuoso. Ele se sentou na cama, e sentiu que talvez ela fosse até mais confortável do que a dele próprio.

Mesmo assim, ele não queria perder tempo. Ainda era cedo, e talvez fosse possível fazer algo antes do dia terminar.

 

Dainty explorava as avenidas de Manehattan em busca de lojas de discos. Ele considerou perguntar para alguém na rua, mas todos os pôneis pareciam apressados, então ele achou melhor não perder tempo. Ele tomara o cuidado de anotar o endereço da pousada, pois, se ele se perdesse, ele poderia chamar um táxi.

Ele chegou até o cruzamento de duas grandes avenidas. Ao olhar em cada uma das direções, ele avistou o que parecia ser uma grande loja de discos à sua esquerda, do outro lado da rua. Ele esperou para atravessar até a outra calçada, e aproximou-se da loja. Ele ouvia um tipo de música moderna vindo lá de dentro.

O lugar era grande, incomparável em relação à modesta lojinha de Ponyville, e estava cheia de clientes. Muitas caixas de discos estavam dispostas nas paredes, e até alguns instrumentos estavam expostos no fundo. Dainty examinou as caixas, até chegar à seção demarcada “Rock”.

Tentando não deixar suas expectativas crescerem demais, ele olhou os discos um por um. Ele reconhecia os nomes de algumas das bandas e algumas capas, tendo visto-as no livro, mas ele estava quase no fim da caixa, e não teve sorte. Ainda havia a segunda caixa, porém, então nem tudo estava perdido.

Quase no fim da primeira caixa, algo saltou-lhe à vista. Aquela capa. Ele a reconhecia!

Com os olhos arregalados e o coração em disparada, ele puxou o disco. Na capa, três pôneis encontravam-se em um campo cheio de flores, contra um fundo azul profundo. Deep Voice estava de pé, com um sobretudo escuro, segurando um ramalhete de flores. Shimmering Chord estava sentado em uma pedra, com um instrumento de cordas nos cascos. Cymbal Crash estava sentado diante dele, no chão. Os três olhavam para a câmera, como se olhassem direto nos olhos de Dainty.

Ele virou a capa e leu: Tropa da Cidade — O Descobrimento de Equéstria.

Quase sem fôlego, ele pôs o disco ao lado, dentro de seu campo de visão. Ele ainda tinha que olhar a segunda caixa. Embora ele tivesse encontrado discos de outras bandas que ele gostaria de conferir, ele não queria arriscar ficar sem dinheiro para comprar quaisquer outros discos da Tropa da Cidade que ele encontrasse. Enquanto ele examinava a segunda caixa, ele ficava cuidando do disco ao seu lado—ele tinha receio que algum pônei pudesse chegar e pegá-lo, levando embora seu precioso achado.

Ele enfim chegou ao último disco na segunda caixa, e não achou mais nada. Ainda assim, ele estava satisfeito: finalmente ele tinha uma dos discos da banda ali com ele. Ele correu até o balcão, onde uma jovem caixa atendia. O seu penteado e seus acessórios eram uma novidade para ele, muito modernos.

Ela olhou para o disco, e Dainty teve a sensação que ela disfarçou um olhar de desdém. — Tropa da Cidade, é?

— Sim, isso mesmo — ele disse, tentando não perder a alegria.

Ela cobrou pelo disco e guardou-o em uma bela sacola. Dainty guardou sua compra com cuidado em seu alforje e saiu da loja. Ele tinha vontade de sair pulando e gritando de alegria, mas aquele não era um bom lugar para fazer uma cena dessas.

Ele ainda tinha tempo; o dia ainda estava longe de terminar. Ele vagou pelas avenidas, procurando por outras lojas. Ele chegou até outra loja de discos, quase do tamanho da outra, mas não encontrou nada. Em outra quadra, ele avistou uma livraria, e decidiu arriscar.

Ao pesquisar a seção de música, seus olhos pararam nos dizeres grandes na espinha de um dos livros: Tropa da Cidade: A verdadeira história. Não era um livro grande, mas todo ele era sobre a banda. A capa exibia uma foto de Deep Voice no palco, cantando em um microfone, com o borrão dos outros membros da banda ao fundo.

Dainty comprou o livro e guardou-o. Ele ainda estava bem de dinheiro: ele poderia comprar mais discos que ele encontrasse, e ainda dava pra comer e passear o quanto ele quisesse. Ao pensar nisso, ele percebeu que estava faminto. Ele parou em uma lanchonete e rapidamente comeu um sanduíche, enquanto o sol começava a cair e as lojas iam fechando. O dia estava no fim.

Ele voltou a trote para a pousada. Warm Breeze ainda estava atrás do balcão.

— Boa noite, Srª Breeze — Dainty disse, com um sorriso involuntário. Ao cumprimentá-la, ele notou um toca-discos desligado, encostado na parede atrás dela.

— Boa noite, Sr. Tunes! Espero que esteja tudo bem.

— Ah, está sim, está sim — ele respondeu, já um pouco nervoso. — É, olha só, eu… eu vi que vocês têm um toca-discos aí.

Ela olhou para trás, por instinto. — Sim, verdade! Nós raramente usamos ele ultimamente, mas eu acho que ele ainda funciona.

— Que bom. Eu… eu tinha pensado — ele disse, já temeroso de estar passando dos limites —, se seria possível levá-lo pro meu quarto, pra eu usar? Eu acabei de comprar um disco, e eu queria dar uma ouvida.

— Não teria problema algum, meu bem! — ela respondeu. — Talvez eu devesse perguntar para Silvery Light, mas eu sei que ele não se importaria.

— Tem certeza? Dá pra levar ele agora? — Dainty disse.

— Sim, sim, claro — ela respondeu sorrindo, já indo levar a mesinha com o aparelho até o corredor.

— Muito obrigado, Srª Breeze! — Dainty disse. — Eu fico muito grato.

— Não há de quê, meu bem — ela disse, enquanto ele ajudava a levar a mesinha até o quarto. — Eu só preciso pedir que, por gentileza, não ponha o volume muito alto, para não atrapalhar os vizinhos e os outros hóspedes, tudo bem?

— Claro! — Dainty respondeu, os olhos bem abertos. — Sim, com certeza, eu não vou atrapalhar ninguém. Eu vou tomar cuidado.

— Bom, isso é ótimo — ela disse, voltando ao balcão. — Aproveite seu disco, meu bem!

— Obrigado — ele disse, abrindo a porta e levando a mesinha para dentro.

Embora o quarto fosse pequeno, ele conseguiu colocar o aparelho ao lado do roupeiro, e ligou-o em uma tomada na parede. Ele fechou a porta, e, com cuidado, tirou o disco do alforje, inspecionando a capa com atenção. Ele tirou a capa interna, que tinha a lista de músicas e as letras, e, com todo o cuidado do mundo, tirou o disco propriamente dito. O cheiro do papelão e o reflexo da luz na superfície de vinil negro do disco quase deixavam-no sem reação. Ele já estava cativado.

Dainty pôs o disco no prato do toca-discos, ligou o aparelho e colocou o volume em um nível apropriado. Ele ergueu a agulha, puxou-a um pouco para o lado, o que fez o disco começar a girar. Ele pôs a agulha na borda do disco e sentou-se, ansioso.

O som de bateria e de instrumentos de corda preencheu o quarto e seus ouvidos. Um ritmo quebrado e um balanço de guitarras e bandolins fizeram o coração dele palpitar. A voz de Deep Voice surgiu por cima, rica e plena, navegando as notas daquela melodia com força e graça, enchendo cada palavra de significado, modulando entre angústia e alívio. A canção falava de perda, confusão, perdão e redenção. E então, quando o canto parou, a banda disparou em um ritmo veloz, guitarras cintilando e a bateria estalando com intensa energia.

Dainty nunca ouvira nada como aquilo. Sua boca estava aberta, os olhos quase não piscavam. Ele não conseguia acreditar em seus ouvidos. Ele já havia visto mágica, mas ele nunca a ouvira. Aquilo era mágica na forma de música.

O disco prosseguiu por várias canções; algumas fortes e furiosas, outras gentis e delicadas, outras tristes e melancólicas. Dainty ficou sentado diante o toca-discos, quase sem mexer um músculo sequer, até a agulha chegar ao centro do disco. Como se ele fosse acordado de um transe, ele se levantou para virar o disco, e voltou a sentar-se enquanto a música recomeçava.

Dainty percebia que, seja lá qual fosse o sentimento que a banda colocasse em cada canção, a música era plena de amor e emoção legítimos. Aos poucos, ele percebeu: isso é o que ele sempre quis fazer. Aquilo era tudo que ele podia desejar ser como músico.

 

Dainty Tunes pôs o disco para tocar de novo, desde o início, e deitou-se na cama para ler seu novo livro. Ele não conseguiria ler tudo em uma noite só, mas ele poderia aprender algumas coisas interessantes sobre a banda. O livro ia mais fundo na origem dos membros: a maioria deles vinha de famílias relativamente privilegiadas, e, embora isso facilitasse um pouco suas vidas, não era o suficiente para compensar o tédio de seus arredores. A música e a arte eram suas principais salvações. Deep Voice, em especial, era um leitor ávido e um devorador de música; graças ao status de suas famílias, eles sabiam do que estava acontecendo em toda Equéstria, as mais novas bandas, os autores mais badalados, as modas mais inusitadas.

No fundo, porém, Deep Voice era um pônei complicado. Ele entrava e saía de relacionamentos com outros pôneis, e era muito sensível a tudo que acontecia ao seu redor. Ele variava da pura euforia e alegria com sua música até a tristeza e desilusão profunda com os acontecimentos. Ele podia ser um amigo gentil, divertido e sagaz em um dia, e um mandão manipulativo e ácido no outro. Em uma noite, ele fazia o show mais enérgico e emocionante que o público já viu na vida; na outra, ele ficava irritado com a falta de educação do público e fazia o show inteiro deitado no chão, ignorando a presença dos fãs.

Porém, quanto à música, tudo era um verdadeiro trabalho de equipe. Todos traziam ideias e ajudavam a construir as canções, muitas vezes no próprio estúdio, juntando partes diferentes, criando as progressões de acordes e melodias, e descobrindo como cada música devia ser. Depois que Rocky Rumble saiu, a banda ficou ainda mais unida como um trio, e embora Deep Voice acabava tomando o papel de liderança, eles eram uma unidade.

Tudo isso ajudava a explicar como a música era tão cativante e diversificada, mantendo sempre a legitimidade: ela era resultado de um grupo de músicos que acreditava na arte e trabalhava duro em nome dela, e as emoções e ideias expressas pelas letras vinham de um pônei que tinha o coração sempre aberto, mesmo quando isso podia feri-lo.

Depois de ouvir o disco e ler o livro a noite inteira, ele guardou o livro na mesa ao lado da cama, e levantou-se para guardar o disco, colocando-o sobre a sua mala, longe da janela. Ele foi para a cama, torcendo que o dia seguinte trouxesse mais surpresas.

*

Dainty acordou na manhã seguinte com a mente anuviada. O dia estava belo e ensolarado lá fora, e ele tinha coisas importantes para fazer, mas demorou um tempo até ele conseguir sair da cama.

No saguão, Silvery Light estava atrás do balcão. Do outro lado da sala, em uma mesinha, o café da manhã estava servido. Havia café e chá, pães com diversas opções de cobertura, bolos e outras delícias que Dainty não conseguia enxergar de longe. Um casal de pôneis de meia idade tomava seu café e conversava, sentado em um par de cadeiras em um canto.

— Bom dia, Sr. Light!

— Ah, bom dia, Sr. Tunes — o velho garanhão respondeu. — Você chegou a tempo do café.

— Sim, dei sorte! A cara tá bonita — Dainty disse, indo até a mesa. — É, a propósito, eu queria perguntar… A música estava alta demais ontem de noite?

Silvery Light olhou para o lado por um instante, como se puxasse pela memória, e balançou a cabeça. — Não, não estava, não. Dava para ouvir um pouquinho, mas estava mais baixa do que o barulho lá de fora.

— Ah, que bom saber! — Dainty disse, servindo-se uma xícara de café. — Eu não queria atrapalhar, então eu vou continuar assim.

— Aquilo era um tipo de rock que você estava ouvindo? — o velho pônei disse, com uma certa ênfase na palavra “rock” que sugeria tratar-se de um conceito estranho para ele.

— Ãh… sim, era, sim. Era uma banda chamada Tropa da Cidade. Eu estou conhecendo eles agora.

— Tropa da Cidade — Silvery Light disse, com alguma lembrança. — Um de meus filhos era um grande fã deles. Na verdade, a juventude adorava essa banda naquela época. Eles eram uma febre. Agora, parece que todo mundo se esqueceu deles.

— É, verdade — Dainty disse, sentando-se com seu café e uma fatia de pão. — É louco como as coisas vêm e vão.

— Eu acho que os garotos precisam criar coisas novas para se divertir — Silvery disse —, mesmo que não dure. É uma fase. A gente fica mais velho e fica em… coisas mais estáveis. Uma família, um negócio… A gente pensa em criar uma vida segura pra quando a gente ficar velho. E é assim que a vida vai. Você está na idade de aproveitar esse tipo de música, e é bom aproveitar enquanto isso durar, filho. Faça valer.

Dainty acenou com a cabeça, pego por um pensamento súbito. — É… Claro, eu vou fazer isso, Sr. Light.

Ele não pode deixar de pensar sobre isso enquanto tomava o seu café. Será que sua paixão por música era algo passageiro? Seria isso mero resultado de sua idade—relativamente—jovem, e sua necessidade de encontrar algo no qual gastar sua energia? Ele esperava que não fosse apenas isso. Se ele algum dia sentisse a necessidade de se acomodar, ele desejava ainda ter a música como companheira, de alguma forma.

Enfim, ele voltou ao seu quarto para apanhar o alforje, e retornou às ruas. Sua caçada por discos estava recomeçando.

 

Um pensamento que zunia na cabeça de Dainty é que Shimmering Chord tinha uma loja de discos. Se ele conseguisse encontrá-la, seria talvez sua maior descoberta. Ele sabia que a loja se chamava Let’s Rock!, e, talvez, se ele perguntasse nas outras lojas, ele conseguiria encontrá-la.

A primeira loja que ele visitou era um pouco menor do que as do dia anterior, e ele não teve sorte. Um dos vendedores deu-lhe uma vaga ideia de onde ficava a loja Let’s Rock!, e Dainty seguiu naquela direção.

No caminho, ele encontrou uma loja grande e aparentemente chique, chamada Untouched Records. Ele entrou, e foi recebido por uma música eletrônica alta, e diversos pôsteres dos últimos lançamentos. Um pouco atordoado, ele encontrou a seção de rock, um pouco isolada das outras, e começou a percorrê-la. Enfim, ele atingiu um tesouro: o segundo disco da banda, que era o seu mais bem sucedido. A capa era minimalista, com o nome da banda escrito em vermelho sobre um fundo marrom.

Ao levantar o disco, ele notou que um pônei ao seu lado fez uma careta e sacudiu a cabeça. Dainty franziu a testa, imaginando se aquilo tinha sido para ele. Tentando ignorar a distração, ele virou a capa do disco para olhar a lista de faixas. Um dos títulos era familiar: Tempo Perdido. Ele se lembrou que isso era parte da letra da música que Steel Strings tocara naquela noite.

— Que legal! — ele disse para si mesmo.

— Essa banda é uma porcaria — o pônei ao lado disse.

Dainty olhou para ele, com um sorriso torto. — Isso foi pra mim?

— Foi sim — o pônei disse. Ele era um pégaso com uma pelagem azul e crina lisa e preta, e usava uma jaqueta escura. — Essa banda aí é uma droga.

— Desculpa, mas, eu não perguntei — Dainty disse, sacudindo a cabeça com o fato de ele precisar dizer algo tão óbvio.

— Só tô te dando um conselho — o pônei insistiu. — Eu jogaria isso fora se eu fosse você.

— Por que você acha eles tão ruins?

O pégaso suspirou pesadamente. — A minha irmã mais velha idolatrava esses caras. Ela não parava de escutar eles. Tipo, na verdade, todos os amigos dela não calavam a boca sobre essa banda. Eles diziam que o Deep Voice era um “gênio”, um “profeta”, mas, na real? Tudo que ele fez foi copiar outras bandas, tipo O Remédio e a Seção Feliz. E ele não era nem um bom letrista, tipo, as letras não rimavam, era só um monte de asneira que não dizia nada. E eles não paravam de tocar! Não é à toa que todo mundo ficou de saco cheio, e graças a Celéstia!

Dainty mal conseguia reagir. Ele achava esquisito como aquele rapaz tinha um sentimento tão intenso de desgosto por uma banda. Parecia um desperdício de emoção.

— Bom — ele disse, um pouco incerto —, tá legal, mas gosto deles mesmo assim.

O pônei deu de ombros, como se tentasse debochar. — Você é que sabe, cara.

Dainty ponderou por um momento, e decidiu que ele sabia mesmo: ele apanhou o disco e levou-o até o balcão.

 

Ele continuou explorando as lojas de disco enquanto trotava pelas calçadas, desviando dos pôneis que, ora passavam correndo em uma pressa ensandecida, ora passeavam lentamente como se ninguém mais estivesse ali. Em cada loja, ele perguntava o caminho até a Let’s Rock!, e percebia que estava chegando perto. Ele não teve mais a sorte de encontrar os discos, no entanto. Ele às vezes tinha vontade de simplesmente perguntar se havia algo da banda em estoque, mas ele temia ser alvo de deboche, ou até hostilidade.

Ele continuou pensando na diatribe que ouvira daquele pônei na loja. Ele não tinha qualquer problema com o fato de outros pôneis gostarem de coisas diferentes e terem opiniões diferentes, isso estava bem para ele. Mesmo assim, era estranho haver tanto ressentimento por uma banda que sequer existia mais. Pelo menos ele tinha uma noção melhor dos motivos que levavam a isso: pelo visto, eles tiveram uma legião de fãs que não falavam em outra coisa. Isso podia cansar, mas será que a banda tinha culpa disso? Parecia injusto. Além disso, eles pareciam com outras bandas? Dainty não sabia como era o som daquelas outras bandas, e ele apenas vira os nomes delas no seu livro. Porém, se fosse esse o caso, qual o problema? Todo mundo tem suas influências, e ninguém começa do zero, certo?

Tais pensamentos zuniam em sua mente como moscas famintas, e ele tentava ficar focado em sua missão. Em um certo ponto, ele parou para comer algo, e, minutos depois, avistou a loja do outro lado da rua. O nome estava escrito em letras grandes e vermelhas, e a loja era grande, mas não gigantesca como a Untouched Records que ele visitara.

Dainty atravessou a avenida e entrou na loja. Para sua surpresa, quase toda a loja era dedicada ao rock. Ele pensou: será que isso devia ser uma surpresa, considerando o nome da loja? Mesmo assim, ele já estava tão acostumado a ver o rock em um espacinho pequeno, como algo de nicho, que aquilo era novidade para ele.

A seleção de discos era bastante rica. Ele não imaginava que havia tanto rock por aí! Ele até achou discos muito recentes, lançados naquele ano e no anterior, portanto alguém ainda gostava muito desse tipo de som, o suficiente para manter o movimento vivo.

A surpresa não foi grande de ver os discos da Tropa da Cidade, embora eles não tivessem toda a coleção. Ele pegou dois discos novos: o primeiro, auto-intitulado, com uma capa branca e uma foto em preto-e-branco da banda; e As Quatro Estações, um de seus discos mais famosos. Pelo que ele havia lido, ele agora tinha toda a coleção. Ele estava em êxtase, e, o melhor de tudo, as compras cabiam perfeitamente nas suas despesas.

Ele pagou pelos discos e guardou-os com cuidado no alforje. Em termos práticos, sua missão estava concluída.

 

Dainty decidiu retornar à pousada e guardar os discos, pois não era seguro ficar perambulando com eles nas ruas. Ele estava curioso para escutá-los, mas ele ainda tinha a tarde inteira, e ele tinha vontade de conhecer melhor a cidade. Ele escutaria os discos à noite, quando não haveria mais nada a fazer.

Embora ele gostasse de passear pelas ruas e ver toda aquela variedade de coisas que elas tinham a mostrar, com belos prédios, publicidade extravagante, e uma mistura de todo tipo de pônei que se possa imaginar, ele pensava que ele não gostaria nem um pouco de viver em um lugar assim. O barulho tornaria impossível sequer pensar em música, e parecia não haver lugar algum onde ele pudesse ficar um pouco sozinho—fora a sua casa, mas isso podia acabar enjoando também. Ponyville era muito mais amistosa nesse sentido.

Ele saiu para jantar quando a noite começou a cair, e voltou ao seu quarto. Ele começou a examinar os discos e colocou-os para tocar, deixando a música preencher seus ouvidos enquanto ele lia os encartes e as letras. Ele começou em ordem cronológica: o primeiro disco era mais seco e direto, com uma espécie de fúria criativa que estalava em cada canção. O segundo disco era melhor, mais sutil e colorido, mas o som ainda era um pouco cru. O terceiro disco, As Quatro Estações, era o mais bem trabalhado, com uma sonoridade cristalina, e canções que fluíam com lirismo e beleza melódica.

Dainty repetiu o ritual da noite anterior, lendo o livro enquanto a música tocava. Desta vez, ele alternava os discos enquanto a noite passava, tentando absorver a música o máximo que dava.

Em um certo momento, ele sentiu o baque de uma repentina sensação de solidão: pelo visto, poucos pôneis importavam-se com aquela banda, o que significava que ele era um dos poucos a escutar aquelas músicas naquele momento. Não é que ele quisesse forçar os outros a gostar das mesmas coisas que ele, mas seria possível que a Tropa da Cidade já tivesse mesmo chegado ao seu fim? Ou será que muitos pôneis não se importavam apenas porque não a conheciam? Em outras palavras, se aquelas canções começassem a tocar de novo, quem sabe elas atrairiam atenção? Ele não conseguiu parar de pensar no fato de que o resto da banda jamais tocou aquelas músicas de novo.

O pensamento dava voltas em sua mente quando ele se deitou para dormir, enquanto o lado B de As Quatro Estações tocava suavemente.

*

Durante o café da manhã, Dainty Tunes ruminava uma ideia ousada.

Tudo nele dizia que seria uma ideia estúpida, mas, afinal, ele sentira que a viagem para Manehattan seria um imenso erro, mas ela acabou sendo um sucesso. Talvez ele não devesse julgar tão mal suas próprias ideias, embora isso fosse mais fácil de falar do que fazer. Era difícil sentir-se confiante quando a voz da insegurança era tão convincente.

Ele saiu para as ruas e percorreu o caminho de volta à loja Let’s Rock!. Ele andava devagar, pois pensava que, a qualquer momento, ele poderia desistir, e bastava dar meia volta e ir fazer outra coisa. Ou, talvez, chegando lá, ele apenas daria mais uma olhada na loja e compraria alguns discos; e isso haveria de bastar, considerando o dinheiro que ainda sobrava.

Ele chegou até a loja, e, com o coração palpitando rápido, entrou. Ele foi até o balcão, onde um unicórnio trabalhava. Ele não era muito jovem, e tinha barba e uma crina castanha-clara bagunçada, que caía ao redor de seu rosto amarelado.

— Oi, com licença? — Dainty disse.

— Sim? — o pônei respondeu, com uma voz grossa.

— Ãh… o Shimmering Chord ainda trabalha aqui? Tem algum jeito de eu falar com ele?

— Você quer deixar uma fita demo? — o unicórnio respondeu. — Você pode deixar ela comigo, que eu passo pra ele.

— Bom, na verdade, eu acho que era uma coisa que eu precisava falar com ele pessoalmente — Dainty disse, percebendo que essas palavras não eram nada convincentes. — Eu queria conversar com ele sobre a Tropa da Cidade.

O unicórnio ergueu uma sobrancelha. — E você é?

— Eu sou um músico de Ponyville, meu nome é Dainty Tunes, e eu… é, dá pra se dizer que eu tô fazendo uma pesquisa a respeito deles. Eu vim de lá até aqui pra saber a respeito deles.

— Sério mesmo?

— É, sim — Dainty disse, quase como se isso fosse motivo para constrangimento.

— Você não é repórter, não é?

Dainty esfregou a nuca. — Não. Não, de jeito nenhum. Na verdade, eu sou pedreiro, sabe, mas só porque eu ainda não consigo pagar as contas com música. Não ainda.

— Sim, eu entendo — o unicórnio disse. Dainty notou que o chifre dele brilhava com alguma mágica. — Eu não sei se eu deveria fazer isso, mas você me passa confiança. — Então, um pedaço de papel flutuou até Dainty. — Esse é o endereço do Shimmering Chord. Ele deve estar em casa agora, então talvez você consiga encontrá-lo.

Dainty apanhou o papel e leu-o com atenção, os olhos arregalados. — Nossa… obrigado mesmo! Sério, eu fico grato. Eu… É melhor eu ir indo, mas obrigado de novo.

— Tranquilo, amigo, e boa sorte.

 

Dainty chamou um táxi na avenida e deu o endereço ao motorista. Ele andou por várias quadras, e notou que estava saindo da parte mais movimentada da cidade para uma área mais residencial. Após algumas curvas, o carro estacionou diante de um prédio marrom.

— Chegamos, senhor — o motorista disse.

Dainty pagou a corrida e agradeceu, e ficou na calçada, diante do prédio. Seu coração corria mais do que quando ele entrou na loja. Havia tanta coisa que podia dar errado agora.

Ele tocou o interfone. Alguns segundos passaram-se, e ele teve o receio de que ele não ouviria resposta.

— Olá? — uma voz feminina respondeu.

— É, oi — ele disse, apressado. — Olá. Eu gostaria de falar com o Shimmering Chord. Ele está aí?

Só então ele percebeu como isso soava tolo.

— E você, quem é?

— Meu nome é Dainty Tunes. Eu sou um músico de Ponyville. Eu queria falar com ele sobre a Tropa da Cidade. Eu… é, estou pesquisando sobre a banda.

Ele ouviu vozes distantes, mas não dava para entender o que elas diziam.

— Você não tem hora marcada com ele, não? — a voz disse.

— Na verdade, não… Eu fui até a loja Let’s Rock!, e eles me deram o endereço.

As vozes conversaram no fundo de novo.

— Foi um unicórnio de barba e crina castanha que te deu o endereço?

— Sim. Foi, sim.

Passou um segundo, e ele ouviu a porta do prédio sendo destrancada.

 

Ele chegou ao terceiro andar e caminhou até a porta do apartamento de Shimmering Chord, com a sensação de que ele não tinha o direito de estar ali. Ele bateu na porta e aguardou. Em questão de segundos, uma pégaso abriu a porta. Ela tinha uma crina preta e curta, e sua pelagem era azul-esverdeada.

— Por favor, entre, Sr. Dainty Tunes — ela disse, dando-lhe espaço.

Ele deu alguns passos e encontrou Shimmering Chord sentado em um dos sofás da sala. Ele olhou para Dainty com seus olhos escuros e focinho angular. O olhar dele era profundo, tal como na capa d’O Descobrimento de Equéstria. Ele ainda tinha a mesma crina curta.

Dainty estaqueou, finalmente percebendo o que estava acontecendo.

— Pode se sentar — Shimmering Chord disse, apontando para o sofá diante dele.

— Ah, obrigado — Dainty disse, enquanto foi até o sofá e sentou-se, os olhos congelados. Ele quase ouvia o pulsar do próprio coração.

— Então, você está pesquisando a minha banda, correto? — Shimmering disse.

— É, eu acho que sim — Dainty disse, coçando o rosto. — Eu… descobri vocês uns dias atrás, lá em Ponyville, mas eu não consegui encontrar quase nada lá, nenhum disco, quase nenhum livro… Então, eu vim aqui, pra saber mais sobre vocês, e a música de vocês.

— E você gostou?

— Muito! — Dainty respondeu, as orelhas empinadas. — Eu escutei todos os discos, e eles são ótimos, tão ricos, tão interessantes, bem escritos e… — Ele suspirou. — Na verdade, eu não consigo acreditar que ninguém mais quer escutar uma música que nem essa. Parece que a maioria dos pôneis lá fora nem sabe que vocês existiram. É uma pena que toda essa música tá passando batido.

Shimmering Chord casualmente deu de ombros. — A gente teve o nosso momento. A nossa música foi importante naquela época, mas o tempo passou. Os pôneis seguiram pra outras coisas. É assim que as coisas vão.

Dainty sacudiu a cabeça. — Eu sei lá, eu não penso assim. Não é só porque as músicas são antigas que elas têm que ser esquecidas. Quer dizer, vocês nunca se juntaram de novo pra tocar elas. Vocês podiam, tipo, encontrar um bom cantor e voltar a fazer shows e trazer essa música de volta pra Equéstria.

— Não tem como — Shimmering Chord respondeu. — Deep Voice é insubstituível.

— Ah, sim, mas eu não tô dizendo pra vocês substituírem ele — Dainty defendeu-se. — Não é bem isso. Vocês só precisavam de um cantor bom o bastante pra cantar as músicas como elas merecem, como tributo ao Deep Voice, talvez. Mas o importante são as músicas! Afinal, você não se importa com elas?

— Claro que sim — Shimmering Chord retrucou. — Elas foram o melhor trabalho que eu já fiz. Eu me orgulho do meu tempo com a Tropa. Tinha lá seus percalços, mas era ótimo sair e tocar, e depois voltar pro estúdio e compor. E trabalhar com o Deep Voice era… bom, ele era único. Eu nunca conheci ninguém como ele. Ele sabia mais de música do que todos os outros pôneis que eu conhecia juntos. Ele devorava discos, sabia os nomes dos membros, cantava todas as músicas… Ele amava teatro, amava poesia, ele amava tudo que era belo. E, sim, ele dava problema às vezes, e nos deu uns belos sustos… E ele era temperamental, imprevisível… Num dia, ele era divertido e boa praça, sempre com alguma coisa interessante pra dizer… e, no outro, ele era grosseiro, debochado, e parecia que ele detestava tudo e todos. Mas, na verdade, ele era sentimental. Tudo mexia com ele, e ele trazia isso pras canções…

— Quer dizer, a gente escrevia quase todas as músicas juntos, muitas vezes no próprio estúdio. Cymbal Crash e eu trazíamos as ideias, trabalhávamos nos ritmos, acordes, linhas de guitarra e teclado, e o Rocky Rumble também fez muita coisa boa quando ele tava com a gente. Todo mundo trazia algo pras canções. Mas, no fim, era Deep Voice quem pegava essas ideias todas e transformava elas em canções de verdade, e o que ele fazia era… Bom, ele não era unicórnio, mas fazia mágica. As melodias, as letras… Eu não sei como ele fazia aquilo, era inacreditável. E eu tenho orgulho de ter feito parte disso.

Dainty Tunes assistia-o em silêncio. Aquele testemunho deixou-o comovido, e ainda mais motivado na missão que levara-o àquela casa.

— Então, é por isso mesmo que a gente devia trazer essa música de volta — Dainty disse, com suavidade.

Shimmering Chord deu de ombros. — Se você quiser, você pode tentar.

— Bom, eu poderia formar a minha própria banda — Dainty respondeu. — Eu posso encontrar músicos em Ponyville e juntar eles, e aprender as músicas e tocar pra todo mundo. Eu acho que dá pra fazer. Você não vai me impedir, né?

— Eu não teria motivo — Shimmering Chord disse —, a menos que você tente ganhar dinheiro com a nossa música. Isso não.

— Não, claro que não — Dainty disse, erguendo os cascos, quase ofendido. — Eu não quero lucrar com isso! Mas, enfim, eu tenho a sua permissão? Você me dá a bênção?

— Acho que você não precisa da minha bênção. Se você acha que consegue, vai lá e faz. Ninguém vai te impedir.

— Nossa, obrigado! Isso é… bom, é importante demais pra mim. Você não faz ideia do quanto eu fico agradecido.

— Não tem de quê, parceiro.

Dainty olhou para a porta. — Bom, eu… eu acho que é a minha deixa pra eu tomar o meu rumo, então — ele disse, levantando-se do sofá. — Eu não vou tomar mais do seu tempo.

— Tudo bem. — Shimmering Chord levantou-se, e acompanhou Dainty até a porta. — Obrigado pela visita.

— Ah, e… antes de ir — Dainty disse, parando logo antes de chegar à porta —, eu queria dizer uma coisa… — Ele tomou fôlego. — Obrigado. Obrigado por ter feito toda essa música, por ter feito tanta coisa bonita e inspiradora. E, quando você falar com eles, manda o meu agradecimento pro Rocky Rumble e o Cymbal Crash… e, também pro Deep Voice, onde quer que ele esteja.

Shimmering Chord acenou com a cabeça, um sorriso oculto no rosto. — Claro, eu faço sim.

— Tá, eu… Até a próxima, então.

 

Dainty parou no meio das escadas. Ele tremia e soluçava, tendo percebido o que acontecera. Embora ele tivesse fracassado na missão de convencer Shimmering Chord a reunir a banda (ou o que sobrou dela), ele tinha acabado de conhecê-lo e falar com ele. Nada mais passava pela cabeça dele.

Ele respirou fundo, ergueu a cabeça e foi até a saída.

terça-feira, 15 de junho de 2021

A Manada de Ponyville. Faixa 1: Quase Sem Querer

Esta história é um fanfiction da série My Little Pony: Friendship Is Magic, de propriedade da Hasbro. Trata-se de uma história em vários capítulos, a serem publicados gradualmente. É recomendada a leitura prévia dos contos Pinkie e o Sem Cérebro e Terapia do Bolinho, publicados anteriormente.

 

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Dainty Tunes estava trabalhando com construção civil já há um bom tempo.

O serviço não tinha muito a ver com ele: seu corpo era fino, ele não era muito forte, e o trabalho era mais perigoso do que ele gostaria que fosse. Porém, ele até que se virava bem. Seu estilo metódico e atencioso compensava pela falta de força física, e qualquer tarefa que exigisse um trabalho minucioso e repetitivo geralmente era deixado para ele. Era um trabalho duro, e distante de suas ambições, mas, no momento, haveria de ser assim.

Pelo menos ele se dava bem com seus colegas. De fato, nesta noite, ele iria sair com dois de seus colegas, Jack Hammer e Iron Bolt. Ele conseguira encontrar alguma afinidade com os dois, e, embora ele falasse pouco, ele era um ouvinte atento, e sempre era possível contar com ele para ouvir as histórias, fossem alegres ou trágicas, que os dois tinham para contar. Ele notara, porém, que nenhum dos dois tinha grande interesse por música. Eles gostavam, mas não o bastante para quererem discutir as tradições musicais de Equéstria, os diferentes gêneros, e o contraste entre o estilo erudito e galante da tradição de Canterlot com a música folclórica de povoados como a própria Ponyville. No fundo, ele desejava conseguir aplicar todo o estudo e leitura que ele fazia em seu tempo livre; quando ele não estava compondo ou treinando seus instrumentos, ele lia partituras ou tratados de harmonia e orquestração. Era interessante, mas, até o momento, nada mais que um hobby.

Por enquanto, ele estava feliz em ir com seus amigos a um bar, localizado na periferia de Ponyville, para beber e conversar. Ele já estivera duas vezes no Bamboo Pub; na primeira vez, havia um trio de músicos tocando em um pequeno palco, o qual incluía um piano de armário. A música era agradável e competente, e ele às vezes prestava mais atenção nela do que na conversa de seus amigos. Na segunda noite, não havia ninguém tocando.

Assim que eles entraram, ele notou que o palco estava vazio de novo. O bar em si estava metade cheio, com pôneis conversando alto ao redor das mesas simples e estritamente funcionais, todas abastecidas com bebidas e alguns petiscos. Um garçom andava entre as mesas, levando bebidas. O dono do bar, um pônei corpulento, já de certa idade, trabalhava atrás do balcão com sua esposa, uma senhora de rosto amigável e uma crina um pouco grisalha. O trio cumprimentou os dois com um aceno, e logo foram recebidos pelo garçom.

— O lugar de sempre? — o garçom disse.

— Com certeza, mestre! — Iron Bolt disse. — Tomara que esteja liberado.

— Tá, tá sim! — o garçom respondeu, levando-os até uma mesa no fundo do bar, perto do palco.

— Maravilha — Jack Hammer disse — e pode trazer uma gelada, já.

— Tá saindo, chefe! — o garçom respondeu, já rumo ao balcão.

Os três pôneis tomaram seus assentos, continuando a conversa que eles vinham levando no caminho. Dainty ouvia com atenção enquanto os dois debatiam o futuro dos times locais, com opiniões sólidas e interesse firme. Embora Dainty não fosse conhecedor de esportes, ele tentava acompanhar o que era dito e aprender alguma coisa. Ele admirava o conhecimento que seus colegas tinham, e como eles eram capazes de elaborar suas opiniões e ideias. Talvez esse interesse não fosse muito diferente da paixão que Dainty tinha pela música, no fim de contas.

A bebida chegou junto com três copos. Dainty encheu os copos, eles brindaram e beberam, e o bate-papo prosseguiu. A conversa às vezes tocava nos assuntos do dia a dia do trabalho, e, nessas horas, Dainty conseguia contribuir um pouco mais.

Algum tempo depois, ele ouviu algum movimento vindo do palco, atrás dele. Alguém estava indo até o piano.

— Ah, não! — Jack Hammer disse. — Hoje é palco aberto.

— Ih, eu tinha esquecido — Iron Bolt respondeu.

— Por quê? Isso é ruim? — Dainty Tunes disse.

— Bom, na maioria das vezes, até vai — Jack Hammer disse. — Mas às vezes fica meio complicado.

O pônei que se sentou ao piano tinha um visual meio desleixado, uma crina despenteada e uma cara de quem não se importa nem um pouco com isso. Ele tocou algo alegre e rápido, e sem vocal. Os amigos de Dainty retomaram a conversa, mas ele não podia deixar de notar a melodia, às vezes. Ele ficava pensando, ele bem que poderia ir até o piano e tocar algo, mas ele não conseguia pensar em um repertório. As canções que ele conhecia não pareciam propícias para o local, principalmente as suas composições próprias. Ele pensava: ele ainda trazia na memória algumas canções do universo paralelo onde ele fora criado, mas poderia ficar muito suspeito tocar tal música para aquele público. Ninguém ali conheceria as canções, e ele não tinha a coragem de dizer que as escrevera! Aquilo não era um filme bobo do Danny Boyle.

O músico que estava no palco tocou uma série de composições. A garrafa de bebida na mesa dos três colegas terminou antes da música.

— Ô, Dainty, faz o teu esquema aí — Iron Bolt disse, entregando-lhe a garrafa vazia.

— Faço sim — ele respondeu, molhando os lábios e apanhando a garrafa.

Ele levou o gargalo até os lábios, e, com uma embocadura específica, soprou. Um assobio oco espalhou-se pelo bar.

— Já vai! — a senhora atrás do balcão disse, com seu tom amistoso.

O trio deu risada. — Não falha nunca!

Em questão de alguns segundos, o garçom trouxe outra garrafa. Iron Bolt serviu os copos.

Algumas outras atrações musicais alternaram-se no palco. Depois do pianista, um pônei acompanhou uma cantora ao violão. Eles eram bons, um pouco previsíveis, porém habilidosos. Alguns minutos depois deles, outro pônei, mais bem vestido e com uma crina cuidadosamente penteada, cantou algumas canções ao piano. Pareciam tratar-se de canções folclóricas, pois ele ouvia alguns outros pôneis cantando junto nas mesas.

Dainty notava que o nível de embriaguez aumentava aos poucos pelo bar. Ainda estava calmo e tranquilo, mas a conversa alta e as risadas tornavam a conversa com os amigos um pouco mais difícil.

Então, ele notou um pônei avançando rumo ao palco, um violão nas costas. Ele puxou uma cadeira, sentou-se e preparou o violão.

— Agora eu vou tocar alguns clássicos da Tropa da Cidade.

Ouviu-se súbitas vaias e protestos das outras mesas. Dainty franziu o cenho, olhando em volta para ver quem estava reclamando.

— Tenham mais respeito, tá bom? — o músico retrucou. — Vocês precisam conhecer um pouco de música boa.

Então, ele tocou alguns acordes arpejados, enquanto as reclamações continuavam. Dainty não pode deixar de ouvir os acordes com atenção: Cmaj7, Am7, Bm7, Em… Estranho, ele pensou. Que estilo diferente de tocar. A música prosseguiu para uma batida rápida sobre os mesmos acordes, e o pônei começou a cantar em barítono:

Todos os dias, quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Alguns guardanapos amassados voaram na direção do palco, mas o pônei continuava tocando e cantando, ignorando as vaias. Iron Bolt e Jack Hammer sacudiam a cabeça.

— Não dá pra acreditar que ele tá fazendo isso! — Iron Bolt disse.

— Qual é o problema? — Dainty disse. — Por que tá todo mundo irritado?

— Ninguém aqui gosta da Tropa da Cidade, cara — Jack Hammer disse. — Essa banda já era.

— Eles faziam sucesso há um tempo atrás, e ninguém aqui quer saber deles agora — Iron Bolt respondeu.

Dainty pensou por um momento. Embora ele não fizesse ideia de que banda era essa, se ele demonstrasse ignorância demais, os outros talvez estranhassem. — Que coisa, não sabia que eles eram tão mal vistos.

— O pessoal daqui é assim, cara — Iron Bolt disse.

Dainty se esforçava para escutar a música no meio do caos; aquele som era intrigante e intenso. Aquela letra! Ele nunca ouvira nada como aquilo. O jeito que a melodia se estendia, quase sem repetições, era cativante de um jeito estranho.

Mesmo assim, o público acabou vencendo o pobre músico, e o dono do bar foi até o palco e pediu encarecidamente que ele parasse de tocar e voltasse para seu lugar. Muitos pôneis celebraram quando ele parou, e alguns continuaram xingando-o enquanto ele se arrastava de volta à sua mesa.

Dainty teve pena dele, mas tentou não deixar transparecer; ele teve receio que alguém se tornasse hostil com ele, e ele não queria nada disso.

A noite avançou, e, em um momento, Dainty teve vontade de ir um pouco para a rua, pois o ruído estava incomodando-o um pouco. Um trio de pôneis estava tocando agora, e eles não eram tão competentes quanto o trio que ele ouvira na primeira noite, mas o público estava gostando. Talvez as bebidas ajudassem a tornar a música mais agradável.

O ar estava fresco lá fora, e a lua brilhava forte no céu. Ele olhou para cima, com um sorriso de canto. — À sua saúde, Princesa Luna! — ele disse, e olhou em volta.

Ele escutou, vindo de algum lugar, notas longínquas de violão, formando uma melodia incomum e interessante. Franzindo a testa, ele deu a volta até a lateral do bar, e encontrou o músico de antes, sentado no chão, com as costas apoiadas na parede, tocando sozinho. Ele tinha um olhar concentrado e cabisbaixo, olhando seus próprios cascos tocando a melodia. Ele tinha uma crina longa e farta em tons de vermelho, desde o bem escuro até o quase laranja, e sua pelagem era cor de amarelo queimado. Sua marca especial era a cabeça de um violão, com tarrachas e tudo.

Dainty assistiu em silêncio, tentando não incomodá-lo, percebendo que aquela melodia encaixava bem com a escuridão tranquila dos arredores. O músico repetiu as frases de violão algumas vezes, até terminar com um rallentando, deixando algumas notas solitárias dispersarem-se na noite.

— Isso foi bom — Dainty disse.

O músico virou a cabeça para vê-lo, sem mudar a expressão. — Você não veio aqui pra me vaiar?

— Não, claro que não — Dainty respondeu, dando alguns passos titubeantes na direção dele. — Aquilo foi… bem chato, o que eles fizeram com você. E foi uma pena, porque a música era boa.

O músico deu de ombros. — Eles não entendem. Eles são modernos, avançados demais pra admirar os clássicos. Por mais que a gente tente mostrar o valor dessas músicas, eles não querem saber.

— Então, pra que insistir? — Dainty disse, já diante do músico.

— Porque talvez tenha lá apenas um pônei que vai querer escutar e descobrir mais, e só por isso já vale a pena.

Dainty olhou para o lado. — … então eu fiz valer a pena? Bom, legal.

— É… Eu gostaria que tivesse mais que nem você, mas talvez eu não devesse pedir demais.

Ele começou a tocar alguns acordes suaves, aparentemente improvisados, e Dainty coçou a nuca, tentando perceber se ele já estava sobrando ali. — Então, essa banda — ele disse —, eles são antigos? A quanto tempo eles já existem?

O músico ergueu a cabeça. — Bom, eles começaram há uns quarenta anos — ele disse, fazendo uma pausa contemplativa —, e terminaram uns vinte e cinco anos atrás.

— Ah, eles já terminaram — Dainty disse, sentando-se no chão. — Que pena.

— Uma lástima, mesmo — o músico respondeu. — Foi uma tragédia quando o Deep Voice se foi.

Dainty ficou chocado. Ele nunca havia se deparado com a menção da morte neste mundo, e o pônei diante dele parecia bastante afetado por isso. — Deep Voice?

— O lendário cantor e letrista da Tropa da Cidade, e um ídolo de muitos — ele disse. — Você não sabe muito deles, né?

— É, eu não sei, não — Dainty respondeu, imaginando que isso devia constrangê-lo. — Eu… eu não conheço muito sobre esse estilo de música. Mas eu gostei bastante.

— Você devia procurar por mais coisas deles, então. Você vai gostar. — Ele tocou seu violão um pouco mais, e olhou para Dainty. — Meu nome é Steel Strings, por sinal.

— Eu sou Dainty Tunes. Prazer em conhecer. — Ele olhou em volta, tentando ver se Steel Strings ainda estava a fim de conversa. — Então… que tal tocar aquela música de antes, agora que ninguém tá aqui pra reclamar?

Steel Strings deu de ombros. — Pode ser, se você quiser…

Após alguns segundos, ele tocou os arpejos de antes, e logo começou a cantar. O som era mais suave dessa vez, provavelmente porque ele não precisava competir com o público. Curiosamente, isso deixou a música ainda mais intensa, como se o rapaz estivesse confessando algo muito pessoal. A letra era misteriosa e oblíqua, mas Dainty não podia deixar de pensar que ela tinha um significado profundo. Ele não conhecia nenhuma outra canção como aquela.

A canção terminou com um tom quase sombrio e desolador, que Steel Strings tocou com uma casualidade que tornava-a ainda mais pesada para Dainty. Era como se a tristeza e a angústia naquela canção não pudessem ser consertadas; era um mero fato inevitável da vida.

— Uau — ele disse. — Essa canção é linda mesmo.

— Uma das melhores já feitas — Steel Strings respondeu, com um suspiro. — Pena que tantos pôneis não dão a mínima.

— Bom, sabe — Dainty disse, sem segurança —, eu acho que pôneis diferentes têm gostos diferentes. Não dá pra esperar que todos eles gostem das mesmas coisas.

— Eu sei, mas será que eles precisam ser tão grosseiros com o que eles não gostam? É tipo, “ah, é chique detestar essa banda, olha como eu sou chique também”. Eu acho isso uma bobagem.

Dainty Tunes deu de ombros. — Talvez seja… mas não tem muito o que fazer, eu acho.

Steel Strings balançou a cabeça. — Dizem que a música une a gente, mas às vezes ela parece que só divide todo mundo.

— Mas a gente faz música mesmo assim, né? O importante é fazer o que a gente gosta.

— Você é músico?

— É, eu… eu sou, sim — Dainty disse, com uma timidez repentina. — Eu também faço música.

— Então você deve saber a frustração que é quando os pôneis não querem te ouvir — Steel Strings respondeu.

— Bom, eu… eu ainda não toquei as minhas coisas em público — Dainty disse. — Eu acho que as coisas vão acontecer quando a hora certa chegar. Eu vou encontrar meu público.

— Mas você tem que começar a botar o seu nome na praça, Dainty Tunes. Ninguém vai bater na sua porta pra te escutar. Você tem que sair e tocar.

— É, eu acho que sim — Dainty disse, esfregando a nuca. — Um dia, quem sabe… — Ele então levantou-se, um pouco envergonhado. — Bom, os meus amigos já devem estar pensando que eu me esqueci deles! Eu… vou voltar pra minha mesa, mas eu… foi legal conversar com você.

— Pra mim também foi, cara — Steel Strings respondeu, voltando a atenção ao seu violão.

Hesitando um pouco, Dainty voltou até a porta da frente e entrou no bar, sentindo o súbito contraste daquele ambiente quente, bagunçado e barulhento. O trio de antes ainda estava tocando, e, a esta altura, nenhum pônei parecia dar atenção à música—era apenas barulho de fundo. Dainty voltou até a mesa.

— Aí, rapaz, se perdeu na floresta? — Iron Bolt disse.

Dainty deu uma risada tímida. — Bom, sabe, a lua tava tão bonita lá fora, eu meio que perdi a noção do tempo.

— Bom, já que você tá aqui — Jack Hammer disse, entregando-lhe a garrafa vazia.

Dainty sabia o que fazer: ele preparou a embocadura novamente e soprou no gargalo, com um pouco mais de força, para vencer o ruído. O assobio foi mais agudo e pungente dessa vez.

A voz da senhora ouviu-se ao longe: — Já vai!

O trio riu-se.

*

Durante o fim de semana, Dainty Tunes volta e meia lembrava-se da canção. Ele não tinha a melodia e a letra inteiras na memória, mas ele se lembrava da harmonia. Ele repetia os acordes no piano e improvisava por cima, tentando lembrar-se de fragmentos da canção.

Ele queria conhecer mais. Ele precisava conhecer mais. Se eles tinham sido uma banda tão conhecida assim, eles deviam ter lançado muitas outras músicas. Ele precisava ouvi-las.

Ponyville tinha apenas uma loja de discos, e ela seria sua única esperança. Durante o intervalo do almoço na segunda-feira, ele correu até a loja. Era um lugarzinho aconchegante, decorado com pôsteres de músicos e bandas famosas, e uma série de caixas cheias de discos, prontas para serem examinadas. Ele não tinha tempo de olhar em todas elas, então ele foi até o balcão, onde um jovem pônei estava. Ele tinha a pelagem azul clara, e sua crina castanha era bem penteada, mas não em excesso, apenas o suficiente para impressionar.

— É, boa tarde — Dainty disse.

— Olá, rapaz! — o vendedor disse. — Precisa de ajuda?

— Sim, eu preciso, sim. Eu queria saber se vocês têm discos da Tropa da Cidade.

O vendedor franziu o cenho e olhou para o teto, a boca entreaberta. Ele inclinou a cabeça, em pensamento profundo. — Eles não são, tipo, uma banda bem antiga?

Dainty Tunes olhou para o lado, um pouco embaraçado. — Eu acho que sim. Mas eu pensei que talvez vocês ainda tivessem alguns discos deles por aqui.

— Se tiver, eles devem estar na seção de usados — o vendedor disse, apontando para o canto oposto da loja.

Dainty acenou com a cabeça. — Bom, tomara que sim. Eu vou dar uma olhada — ele disse, virando-se.

— Fique à vontade!

A caixa de discos usados estava isolada das outras, e continha uma pilha de algumas dezenas de discos. A capa do primeiro disco da pilha estava bem danificada, com as bordas gastas, e parecia ser uma coleção de easy listening. Sem muita esperança, Dainty começou a passar pelos discos, perdendo aos poucos a pouca esperança que tinha. Ele chegou até o último item, que era uma coleção de gravações de campo de músicas tradicionais do Norte Gelado.

Dainty suspirou, mas decidiu ficar com aquele disco, apenas para não sair de cascos vazios—e, afinal, talvez aquelas gravações fossem interessantes. Ele foi até o balcão pagar pela compra, e guardou o disco em seu alforje antes de sair.

— Obrigado pela compra! — o vendedor disse. — Tenha uma boa tarde!

— Igualmente, amigo — Dainty respondeu.

Pelo menos o vendedor não fez graça com aquela estranha escolha, então ele apenas saiu com a decepção de sair sem o que ele buscava.

Enquanto ele prosseguia em seu turno, ele imaginava se havia chance de encontrar partituras das canções. Se elas existissem, elas deviam estar na livraria.

Dainty foi até lá depois do trabalho. A loja estava prestes a fechar, e os últimos pôneis terminavam suas compras. Dainty foi até uma vendedora, uma égua de pelagem castanha clara, e uma crina loira com um estilo formal.

— Boa tarde — Dainty disse, um pouco intimidado. — Eu queria saber se vocês têm partituras musicais à venda.

— Sim, temos — a vendedora respondeu formalmente. — Você procura algo específico?

— Na verdade, sim — Dainty respondeu de pronto. — Eu procuro partituras de canções de uma banda chamada Tropa da Cidade.

A expressão da vendedora mostrou surpresa. — Oh, desculpe, mas nós não trabalhamos com esse tipo de música. Somos especializados em música tradicional e de concerto.

Dainty tentou não mostrar-se decepcionado. — Ah, bom, entendi. É bom saber disso, pelo menos; quando eu precisar disso, eu sei onde ir. Então… obrigado por enquanto, certo?

— Sem problemas, senhor — ela respondeu.

 

Ao voltar para casa, ele pôs o disco para tocar e sentou-se na cama. Ele não podia crer que não havia nada dessa banda. Ele queria ouvir aquela música de novo, e quaisquer outras que eles tivessem gravado—ou pelo menos conhecer um pouco sobre a banda, sua história, quem foram os seus membros. Enquanto ele ouvia as gravações precárias de música feita com flautas rudimentares e percussão simples, ele imaginava se a livraria teria algum livro sobre isso; mas seria difícil de localizar. A não ser que eles tivessem um livro especificamente sobre a banda, ele não sabia o que procurar.

No intervalo do almoço do dia seguinte, ele voltou à livraria, indo até a seção de música. Não era uma seção grande, mas tinha itens suficientes para mantê-lo ocupado por um tempo. A maioria era sobre teoria musical, métodos para instrumentos, tratados de práticas musicais, mas, enfim, ele chegou até a parte de história.

Não havia nada sobre a banda. Havia livros sobre compositores específicos, mas nada sobre Deep Voice. Alguns livros pareciam tratar da história de alguns movimentos musicais, mas ele não sabia onde a Tropa da Cidade encaixava-se.

Ele ponderou por um momento: ele poderia consultar os índices remissivos dos livros.

Dainty Tunes começou a apanhar os livros com títulos promissores e ia direto até as últimas páginas, procurando por Tropa da Cidade ou Deep Voice nos índices. Ele olhou cerca de oito livros, e suas esperanças estavam cessando.

O próximo livro que ele viu tinha uma capa curiosa: uma porção de rapazes em roupas esfarrapadas, penteados malucos e rostos sérios em um beco um tanto inóspito. O título dizia Sacudindo a cidade! A história do rock em Manehattan. Ele ergueu uma sobrancelha, e foi até o índice.

Bingo!

Ele tinha um capítulo inteiro dedicado à banda. Ele não era muito longo, mas o livro dedicava mais páginas àquela banda do que a qualquer outra. Aquilo haveria de bastar por enquanto.

Ele foi até o balcão e pagou pelo livro, e correu de volta para o trabalho.

 

A primeira coisa que ele fez ao chegar em casa à noite foi deitar na cama e abrir o livro, direto na primeira página sobre a Tropa da Cidade. Ele gostaria de ler o resto também, mas ele tinha prioridades.

O livro confirmava as coisas que Steel Strings dissera: eles começaram quase quarenta anos antes, formando-se em um bairro maçante de Baltimare, onde grupos de jovens entediados começaram a apanhar instrumentos e fazer barulho para passar o tempo. Eles estavam fartos da música que seus pais ouviam e que tocava no rádio, e queriam algo mais emocionante. Deep Voice estava entre esses jovens, e começou a tocar baixo, escrever canções e cantar em uma banda que ele formou com alguns amigos.

Porém, a banda terminou poucos anos depois, e Deep Voice quis ir para outro tipo de música: menos barulhenta e amadora, mas forte e enérgica mesmo assim. Então, ele convocou outro grupo de amigos: Cymbal Crash foi chamado para a bateria, e Shimmering Chord providenciou sua guitarra. No final, Deep Voice não queria mais tocar baixo, e passou esse trabalho para Rocky Rumble. Assim, a formação da Tropa da Cidade estava completa.

Dainty pegou-se olhando para uma foto do quarteto, e contemplou seus rostos e expressões. Deep Voice tinha um aspecto totalmente casual, um rapaz de crina crespa e negra e uma pelagem levemente púrpura, focinho largo e olhos pequenos, porém expressivos. Se alguém passasse por ele na rua, provavelmente ignoraria sua existência, mas o seu olhar, as linhas de seu rosto, sugeriam algo profundo e oculto, camadas e camadas de conhecimento e sentimento prestes a explodir. Shimmering Chord tinha um rosto angular, olhos estreitos e uma crina negra e penteada. Ele parecia sério e determinado, como se soubesse exatamente o que queria. Rocky Rumble era objetivo, prático, pronto para o serviço. Ele tinha olhos redondos, crina negra e extremamente curta, e uma pelagem cinza chumbo. Cymbal Crash, com olhos dispersos, expressão suave e crina loira sobre uma pelagem azul, quase violeta, parecia estar em outro lugar, imaginando coisas; talvez alguma música que só ele conseguia ouvir.

Embora a banda tivesse sido formada em Baltimare, foi em Manehattan que eles atingiram o sucesso. Eles foram para lá gravar suas músicas, e a fama chegou rápido. Eles começaram a tocar em grandes shows, viajando até outras cidades também, mas Manehattan permaneceu como seu lar. Rocky Rumble acabou saindo da banda, e os outros continuaram como trio até o final. Shimmering Chord abriu uma loja de discos, que também era um selo, lançando música de bandas novas.

No final, Deep Voice começou a ficar doente, e parou de sair de casa. Ele se foi, deixando fãs atordoados e destroçados por dias. Desde então, os outros membros da banda nunca tocaram aquelas músicas novamente.

O livro não dava grandes detalhes sobre os membros, e como a banda prosseguiu pelos anos, mas ela não era o foco do livro. Porém, já estava claro para ele: se ele quisesse saber mais daquela banda, ele teria que ir até Manehattan.

A ideia deixava-o nervoso: ele estava se acostumando à vida modesta em Ponyville, e agora ele pensava em ir à cidade grande. Parecia amedrontador. Por outro lado, era possível: ele tinha alguns dias de férias para tirar, e guardara dinheiro suficiente para fazer tal viagem. Ele poderia passar alguns dias lá, visitar as lojas de discos e livrarias e pôr os cascos em tudo que ele encontrasse: discos, livros, partituras. Se a loja de Shimmering Chord ainda existia, ela teria algo.



sexta-feira, 11 de junho de 2021

Terapia do Bolinho (fanfiction)

Este conto é um fanfiction da série My Little Pony: Friendship Is Magic, de propriedade da Hasbro, e é uma continuação do conto Pinkie e o Sem Cérebro, publicado anteriormente.

 


Aquele dia começara com a promessa de ser um dia comum e normal, mas as coisas não transcorreram dessa forma. Dainty Tunes saíra da cama de manhã, lento e tonto como de costume, saíra para trabalhar pelo mesmo trajeto de sempre, e a única coisa diferente naquele dia é que ele teria a tarde de folga. Ele foi para casa, pensando em usar a tarde para trabalhar em alguma música nova ou ensaiar as que ele já tinha, pois ele achava que estava ficando um pouco enferrujado.

Mas isso não ocorreu. Ao sentar-se diante do piano, a vontade de tocar estava ausente. Ele não a tinha. Na verdade, ele não tinha vontade de fazer nada. Ela temia admitir, mas isso já era recorrente: seja lá o que ele pensasse em fazer, ele não fazia. Ele passava os fins de tarde em casa, fazendo uma série de pequenos nadas, esperando a noite cair. Ele tentava crer que isso era apenas uma fase, mas estava piorando.

Dainty foi até a janela da frente e pôs um cotovelo no parapeito, repousando a cabeça no casco. O dia parecia tão alegre e cheio de vida lá fora, e ele poderia sair e aproveitar se ele quisesse. Porém, algo fazia isso parecer fútil e sem sentido, e ele não entendia por quê. Não parecia haver um motivo racional para ele se sentir cabisbaixo e desmotivado, mas qualquer coisa que ele pensasse em fazer parecia inútil. De fato, a própria existência dele era inútil.

Talvez fosse isso. Talvez ele fosse inútil. Afinal, por que ele existia? Havia motivo? Ele podia fazer música, mas não havia qualquer sinal de que Equéstria precisasse de sua música. Tudo estava bem daquele jeito. Na verdade, o mundo inteiro parecia bem do jeito que estava, independente dele.

E o que ele poderia fazer? Ficar em casa e lamentar-se? Será que isso não confirmaria a futilidade de tudo? Talvez as coisas não precisassem ser assim.

Um pensamento ficava cutucando-lhe a mente, e ele começava a prestar atenção nele: em momentos como esse, ele bem que podia comer algo gostoso.

Gostoso… como um bolinho.

Não, ele não podia. Ele fizera a promessa: ele ficaria longe delas. Ele precisava evitá-las, senão as coisas poderiam ficar feias. Muito feias.

Mas aí estava o problema: já estava insuportável ficar evitando a tudo e a todos apenas porque algo potencialmente terrível e inimaginável poderia acontecer. Além disso, os Elementos da Harmonia sabiam quem ele era, então não poderia ser tão errado assim se ele falasse com alguma delas. E, se havia um pônei que poderia ter uma conversa sincera e amistosa com ele, era a pônei que o sequestrara, amarrara-o em uma caverna e tentara fazê-lo sumir.

Sim, isso fazia pleno sentido para ele.

*

Ele trotava por Ponyville, sempre com uma sensação de sobressalto quando ele se sentia observado; mas era sempre alarme falso. Os pôneis não notavam nada estranho nele, então estava tudo bem. Ainda assim, ele ficava mais e mais nervoso enquanto chegava perto da Sugarcube Corner, e a única coisa que o mantinha firme em seu caminho era a promessa de bolinhos.

Enfim, ele chegou, empurrou a porta de leve e entrou. O cheiro era tão bom, tão perfeito, que quase fazia-o esquecer-se de seus sentimentos. Quase. Ele olhava a loja, e tudo parecia tão perfeitamente em seu lugar que ele se lembrava de como o mundo estava bem sem ele.

A Srª Cake estava ocupada preenchendo o balcão com alimentos apetitosos, e não pareceu notar que ele se aproximava. Não havia sinais de Pinkie Pie.

— É, olá?

— Olá, senhor! — a Srª Cake disse com um sorriso largo. — Bem vindo à Sugarcube Corner. Você gostaria de dar uma olhada?

— É, sim, claro — ele respondeu, examinando os bolinhos. Eles eram lindos, e ele pensava que, enquanto ele mantivesse o foco nos bolinhos, o desconforto não o atrapalharia. — Esses bolinhos… são de morango?

— São, sim! Feitos hoje pela manhã! — a Srª Cake disse.

— O aspecto tá ótimo. Eu vou querer… quatro deles — Dainty disse, sem conseguir olhá-la diretamente. — Pra levar, por favor.

— Quatro bolinhos de morango para levar, saindo daqui a pouco! — ela confirmou.

Enquanto ela preparava o pedido, a porta da cozinha abriu-se.

— Acabei de colocar uma fornada novinha em folha para assar, Srª Cake! — Pinkie Pie proclamou. — E está na hora do meu intervalo agora… Oh, olá, Dainty Tunes! Que bom vê-lo na nossa loja! Mmm, bolo de morango! — ela disse, dando um salto até ele. — Ótima pedida! Eles estão uma delícia…. modéstia à parte.

— Eu imagino que estão mesmo, Pinkie — ele disse, enquanto recebia seu pedido e pagava por ele. — Obrigado, Srª Cake.

— Ao seu dispor! — ela respondeu. — Volte sempre!

— Então, Dainty, como vão as coisas? — Pinkie disse com um sorriso fixo em seu rosto, enquanto ele guardava seus bolinhos em seu alforje e encaminhava-se rumo à saída.

— Ah, eu, é, eu tô… bem — ele disse, a voz revelando o contrário.

— Tem certeza? — Pinkie disse, a voz dramática e pungente. — Parece que tem alguma coisa te incomodando.

— Ãh, na verdade… — Ele coçou a crina, olhando para a porta. — Eu acho que tem mesmo.

— Que tal se a gente ir lá pra fora e ter uma conversinha com a Pinkie? — ela disse. — Eu tô no meu intervalo agorinha.

O coração dele palpitou. Embora isso era o que ele imaginava fazer quando foi até ali, era chocante perceber que isso estava prestes a ocorrer, ainda mais que a ideia partira dela.

— É, claro, seria uma boa.

*

— Vamos lá, então, bota pra fora, Dainty! — ela disse assim que eles deram a volta no prédio. — O que é que tá te incomodando?

— Bom… eu não sei como é que eu posso explicar — ele começou —, mas a verdade é que… Tá, assim, Pinkie, você sabe quem eu sou. Você sabe o que eu sou, e o que eu represento neste mundo. O problema é que, eu não sei por que eu tô aqui. Até onde eu sei, me colocaram aqui como uma piada, e é isso. — O olhar dele caiu para o chão. — E é isso que eu sou. Eu sou uma piada. Nada mais do que isso: eu sou só uma piada.

— Mas eu gosto de piadas! — ela disse, quase sem pensar. — Piadas são legais! Elas fazem a gente rir e deixam a gente mais alegre!

— Ah, mas essas são as piadas boas — ele respondeu. — Eu sou uma piada ruim, Pinkie.

Ela levou um casco ao queixo. — Bom, eu acho que piadas ruins existem mesmo — ela ponderou. — Mas eu não acho que você seja isso, Dainty! Você é mais do que isso.

— Será mesmo? — ele disse, erguendo o olhar por um momento. — Quer dizer, parece que este mundo está ótimo sem mim. Tava tudo bem, todo mundo tava vivendo bem, e a minha presença aqui… Quer dizer, que diferença faz? Se eu, tipo, desaparecesse do nada, ninguém ia se importar. E eu sinto que eu poderia fazer isso mesmo. Desaparecer. Em um instante, puf, fui, e ficaria tudo bem.

Ela lhe deu um olhar suspeito, meio de lado. — Bem, talvez tenha algo que te faça sentir assim, mas eu sei que você não quer desaparecer. Quer saber como?

Ele olhou para ela, sem dizer nada.

— Você comprou bolinhos!

Dainty sempre soube que o raciocínio de Pìnkie Pie podia tornar-se uma série de ideias desconexas, mas ele nunca imaginou ser confrontado por isso. A reação dele foi apenas encará-la, esperando que ela continuasse. Mas ela não continuou.

— Tá… e?

— Ué, você não percebe? — ela disse, aproximando-se dele. — Se você quisesse mesmo desaparecer, você teria feito isso mesmo, mas não, você não fez! Em vez disso, você pensou, “hm, o que eu queria mesmo agora é comprar bolinhos!” e você veio aqui e fez exatamente isso. — As frases eram rápidas e acompanhadas de gestos e poses, e tudo parecia fazer sentido para ele.

— Então — ela prosseguiu —, o que você quer mesmo é aproveitar a vida aqui, e essa coisa que te faz querer desaparecer só quer te incomodar, mas você pode fazer ela parar de te incomodar! E, claro, nossos bolinhos são uma excelente maneira de afastar os sentimentos ruins, e é por isso que a Sugarcube Corner estará sempre aqui para servi-lo. O cliente vem sempre em primeiro lugar!

Dainty fez uma pausa, como ele demorasse cinco vezes mais para processar aquilo tudo do que ela precisava para falar. Mas ele percebia que ela tinha razão, até certo ponto: ainda havia, dentro dele, uma centelha de vontade de viver e fazer algo bom para si, apesar do temor de que ela estivesse sumindo.

— Talvez você tenha razão — ele disse. A esta altura, ele estava constrangido por ela dedicar tanto tempo e atenção a ele, ainda mais com a sensação de que ele poderia talvez matar toda a energia e entusiasmo dela; embora isso talvez fosse impossível. — Mas não dá pra viver só de bolinho, né… por mais que eu quisesse — ele disse, com uma risada fraca. — Eu só queria… Eu queria ter a sensação de que a minha vida tem algum valor. Às vezes, eu juro, eu… eu sinto que eu não valho nada.

Ele olhou para ela, tentando manter a compostura. — E isso não é só uma coisa de auto-estima. Você sabe o que eu sou. Não é tipo aqueles dias em que alguma amiga sua está triste com alguma coisa que aconteceu e começa a se sentir, sei lá, fraca, incapaz, ou algo assim. Não é isso, porque elas fazem parte deste mundo. Você faz parte deste mundo, e Equéstria não seria o lugar que é se você e suas amigas não estivessem aqui. Vocês são parte do que torna esse mundo tão maravilhoso, e, tipo, eu não sou. Eu fui jogado aqui por alguém que queria se divertir por um momento, e, agora, eu não tenho propósito.

Ele não deixava de notar a expressão dela enquanto ela escutava, os olhos fixos nele, as orelhas empinadas, compreendendo cada palavra dita, porém encarando-o como se houvesse algo óbvio que apenas ele não percebia. Parecia que ela já tinha todas as respostas, e ele apenas não as via porque não tinha procurado muito bem.

— Mas, Dainty! Se você ainda está aqui, é porque quem te pôs aqui ainda te acha importante — ela disse, sem perder a energia na voz, nem por uma sílaba sequer. — Ele se importa contigo! E isso te dá valor! E ninguém aqui te acha inútil. Na verdade, o único pônei aqui que acha que tu não tem valor é…

— Bom, na verdade — ela disse, refletindo enquanto olhava para o céu. — Não é que você pense que não tem valor. É como se alguma coisa na sua cabeça ficasse dizendo no seu ouvido o tempo todo que você não tem valor, mesmo que você tenha, porque é claro que você tem, mas essa voz tenta te puxar pra baixo porque é só isso que ela faz! É a sua voz “pra baixo”, e ela quer te puxar pra baixo porque é a única coisa que ela consegue fazer, porque ela não é você, ela nunca vai ser você, então ela precisa puxar você pra baixo! Não é essa a sensação?

— É, você talvez tenha razão — ele disse, sabendo que ela tinha plena razão.

— E você quer saber o que você pode fazer com essa voz? — ela disse, o ar cheio de tensão dramática.

— O quê?

— Você pode rir dela! — ela respondeu, pulando de alegria algumas vezes.

— Ah, Pinkie, mas eu não consigo — ele disse. — Tipo, você é o Elemento do Riso, é claro que você pode dar risada diante do medo, porque você tem esse poder. Mas eu não tenho…

Ela manteve uma pose estranha, suspensa em pleno ar. — Ei, espera um pouco! Isso não é verdade! — ela disse, aterrissando de pé no chão. — Eu não sou o Elemento do Riso porque só eu tenho esse poder. É meio que o contrário! Eu existo pra lembrar que todo pônei tem esse poder, e eles precisam encontrá-lo dentro de si, do mesmo jeito que eu! Agora, não que isso seja fácil, tá bom? — O rosto dela estava a centímetros de seu nariz enquanto ela dizia isso, seu olhar perfurando os olhos dele. — Você não vai chegar e, “ah, vou rir agora! Tudo resolvido!” Pode ser complicado e pode demorar, mas você consegue, assim como todo pônei consegue, porque você é um pônei que consegue. E, sempre que você achar que eu posso te ajudar, eu estarei aqui.

Dainty pensou nessas palavras por um instante, e começou a soluçar.

— Ei, eu te deixei triste? — ela disse, um pouco insegura.

— Não, não, não é tristeza — ele disse, secando os olhos. — Eu só… É difícil acreditar que você tá… dizendo essas coisas pra mim, porque… só um amigo diria isso.

— Então, meu amigo, você esperava o quê? — Pinkie disse. — Estamos aqui para isso!

— Obrigado, Pinkie! — Dainty disse, tentando ficar mais calmo. — Obrigado mesmo, eu… Obrigado.

— De nada, de nada e de nada! — ela disse, fazendo-o rir por um momento. — Agora, eu queria perguntar uma última coisinha pra você, se você não se importa! Posso?

Ele deu de ombros. — É, claro, sim.

— Como você perdeu o sotaque?

Dainty parou de súbito, o cenho franzido, a mente em disparada. — Eu… perdi?

— Bom, ainda tem um pouquinho bem pequenininho de sotaque lá no fundo, quando eu presto atenção — ela disse —, mas não é tão carregado quanto no início!

— Eu juro que não tinha notado, Pinkie — ele respondeu —, mas, é, isso é… bom?

— Talvez! Não que seja ruim ter um sotaque — ela disse —, mas talvez você esteja mesmo se acostumando com esse mundo, e isso sim é bom.

— Eu acho que sim, Pinkie — ele disse, sorrindo. — Isso… seria ótimo.

— É verdade, meu amigo Dainty! Agora, eu adoraria conversar mais — ela prosseguiu, a voz dela tornando-se mais baixa e mais veloz —, mas o meu intervalo já terminou uns minutinhos atrás e eu já devia estar trabalhando agora, mas!! Não esquece do que eu te falei, não exige demais de você mesmo, e, o mais importante: aproveite os bolinhos! E tá na hora de ir embora agora. Tchauzinho!

E, com um som de ricochete, ela disparou de volta ao prédio. Ele ficou ali, em silêncio, pensando no que acontecera. Ele sempre tivera tanto medo de interferir na vida dos outros, mas, não só ele tivera uma conversa com Pinkie Pie, mas ele sentia que aquilo estava fadado a acontecer. Afinal, o que Pinkie fizera não era nada fora do normal. Essa era a natureza dela. É por isso que ele a admirava, e por isso que ele quisera ir atrás dela. Então, no fim de contas, não havia nada de anormal naquilo tudo. E isso era surpreendente.

Após secar os olhos, ele ergueu o rosto, certificou-se que os bolinhos estavam em seu alforje, e lembrou-se de Pinkie falando da voz em sua cabeça. Ele quase podia escutá-la como se fosse a voz de outrem, e sua única reação foi rir, por um momento.

— É… talvez eu consiga mesmo fazer isso.

E assim, ele voltou para casa, assobiando uma melodia qualquer.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Pinkie e o Sem Cérebro (fanfiction)

Este conto é um fanfiction da série My Little Pony: Friendship Is Magic, de propriedade da Hasbro.

 

Ela pediu que elas fossem “discretas”. Vinda de Pinkie Pie, tal ordem era difícil de obedecer.

Ainda assim, elas percorriam a floresta, fazendo esforço para não perguntar por que; afinal, elas descobririam em breve, então que diferença faria? Enquanto elas prosseguiam, Applejack não conseguia deixar de notar que Pinkie navegava as curvas e dobras da floresta como se ela improvisasse o caminho na hora, ou como se a floresta abrisse tais caminhos de acordo com os caprichos dela. Twilight Sparkle prosseguia logo atrás de Pinkie, e as outras seguiam em fila, com Rainbow Dash por último, observando a todas. Rarity preocupava-se com os galhos que ameaçavam prender-se a sua crina, enquanto Fluttershy torcia que elas chegassem ao seu destino o quanto antes, pois o silêncio e a escuridão de seus arredores deixavam-na desconcertada.

E agora, elas encontram-se bem ali, na entrada de uma caverna.

— Vamos lá! Sigam-me! — ela sussurra alto.

Twilight, quase por instinto, lança uma luz mágica, e elas caminham devagar, ouvindo a reverberação de seus cascos contra o chão rochoso. Pinkie lidera, seu rosto determinado oculto das outras. Twilight tem a ânsia de perguntar o que as espera, mas ela se contém.

Enquanto elas se aproximam de uma curva, elas veem um pouco de luz vindo por trás da quina. Pinkie dá uns passos rápidos adiante, e finalmente vira-se para as outras.

— Lá está ele! Vejam!

As outras cinco pôneis fazem a curva, mas ainda é escuro demais para distinguir o que está lá, apesar das velas que cintilam debilmente no ar úmido da caverna. Applejack é a primeira a ver algo estranho. De início, ela não crê, mas ele está lá: um pônei da terra, vendado e amordaçado, amarrado a uma cadeira. Ele começa a debater-se, provavelmente porque ouve a presença delas, sua pelagem cinza-clara-quase-branca refletindo a luz das velas e da magia de Twilight; sua crina castanha, grossa e crespa, trepidando com seus movimentos.

Os olhos das cinco pôneis arregalam-se em sequência, e elas finalmente sobressaltam-se.

— Pinkie! — Twilight diz, sua voz alta repicando nas paredes. — O que é isso?

— Calma, meninas, calma! Eu posso explicar tudo! — Pinkie responde, seus olhos cerrados, a pata direita erguida com convicção.

— Uai, ocê… cê num sequestrô esse pônei aí, né? — Applejack diz.

— Bem, eu trouxe ele aqui, não exatamente com a permissão dele — Pinkie responde, segurando o queixo, ponderando os fatos. — Mas sequestrar? Isso seria terrível!

Fluttershy sentiu um aperto no estômago. Ela conseguia ouvir o pônei gemendo na cadeira.

— Pinkie, isso é péssimo! — Twilight retruca, seu chifre cintilando com uma mágica nova. — A gente não pode deixar ele assim!

— Não, não! Não faça isso! — Pinkie grita, pulando na frente do pônei, as patas dianteiras estendidas, como se isso pudesse bloquear a mágica. — Isso seria um erro gravíssimo!

— O que poderia ser mais grave do que amarrar um pobre pônei inocente em uma caverna isolada, e trazer-nas aqui para assistir? — Rarity diz. A dignidade em sua voz dava quase um glamour àquela cena.

— Inocente? — Pinkie franze o cenho. — Moças! É isso que eu tô tentando dizer! Aquele pônei — ela disse, apontando —, não é um pônei qualquer! Aquilo… é uma auto-inserção!”

O jeito que Pinkie diz isso dá a impressão de que ela vê uma câmera dando um close dramático no rosto dela.

Os outros pôneis piscam os olhos, em silêncio.

— Uma o quê? — Fluttershy diz.

— Auto-inserção? — Rainbow Dash diz. — Eu nunca ouvi falar nisso antes!

— Ocê pode explicá pra nós, Pinkie? — AJ diz.

— Vocês não sabem o que é isso? — Pinkie Pie diz, em real descrença. — Bem! Eu não sei exatamente de onde essas coisas vêm, mas, todas as vezes que eu encontrei algum, eles estavam aqui para aprontar! Eles vêm do nada, agem de forma estranha, dizem coisas estranhas, todo pônei parece cair de amores por eles, e, eu não sei como, mas eles fazem os pôneis agirem esquisito! Eles dão medo!

O pônei atrás dela parece gemer mais alto agora.

— Mas, se essas coisas existirem mesmo, como você sabe que ele é um desses? — Twilight diz, tentando manter-se racional.

— Ora, cara amiga Twilight, meu Sentido da Pinkie não falha nunca: um fisgadinha na ponta da pata esquerda, e duas fisgadinhas na pontinha do nariz, e é assim que eu sei! Inclusive, está fisgando agorinha mesmo! — ela diz, apontando para o nariz com a pata esquerda. — Vocês estão vendo? Bem aqui!

— Eu num sei se dá pra enxergá fisgadinha, não — Applejack diz.

— Certo que ela consegue enxergar, sei lá como — Rainbow Dash responde.

— Mas o que você espera que façamos? — Rarity diz, em elegante perplexidade. — Por que você nos traria para cá, afinal?

— Eu não sei como dizer isso — Pinkie proclama dramaticamente —, mas temos que fazer ele desaparecer.

— Desaparecer? — as cinco respondem, quase em uníssono.

O prisioneiro quase derruba a cadeira.

— Meninas, eu tô meio enjoada — Fluttershy interrompe, sua voz ainda mais suave que o de costume.

— Sim! Desaparecer — Pinkie insiste. — Nós não podemos permitir que essas coisas perambulem por Ponyville.

— Pinkie! — Twilight diz, dando alguns passos à frente. — Se você quer que a gente acredite em você, você precisa nos deixar falar com ele primeiro.

— Mas, Twilight! Isso é perigoso! Eu disse que eles fazem a gente agir esquisito! Eles fazem eu agir esquisito!

AJ franze a testa. — Pinkie Pie, ninguém precisa te fazê agí esquisito — ela diz. As outras acenam com a cabeça.

— Nãnãnão! Eu não digo esquisito do tipo Pinkie! Eu digo esquisito do tipo bizarro! Um tipo esquisito de esquisito!

— Eu tenho que concordar com Applejack — Twilight diz, diplomática. — Isso tudo já é estranho, portanto precisamos falar com ele.

Pinkie Pie suspira e balança a cabeça, sua fofa crina ecoando o gesto. — Vocês estão cometendo um erro, e depois não digam que eu não avisei!

As quatro pôneis sequer titubearam; exceto por Fluttershy, que estava titubeando desde que ela chegou ali.

Pinkie dá a volta no pônei e desata sua mordaça, suscitando um súbito engasgo e uma sequência de berros:

— aaaah, puta merda! Caralho, puta que pariu, que porra é ess--

Então, a venda cai de seu rosto, e, na ânsia de abrir as pálpebras, a luz arde em seus olhos e ele as fecha de novo.

Aos poucos, ele reabre os olhos, e, assim que ele vê os seis rostos diante dele, sua reação é nula.

Ele apenas fica ali, o queixo caído, os olhos congelados em um tipo de horror que não é mero horror; é um tipo estranho de fascínio, ou pelo menos é o que Rarity presume.

Depois de longos segundos de um silêncio incômodo, Twilight dá um passo adiante. — Ãh, olá?

O pônei respira fundo, quase com dor, e faz esforço pra falar. — É, tipo… é vocês mesmo? Quê que tá…

— Ele parece estar em choque, Twilight! Pobre moço — Rarity diz, pondo-se perto dele. — Não fique com medo! Estamos aqui para ajudar.

Ele viu Pinkie Pie sacudindo a cabeça, mas ele não conseguia reagir a nada.

— Ai, meu deus, eu… quer dizer, por Celéstia, eu… eu tô aqui mesmo? Isso aqui é Ponyville mesmo?

— Estamos na floresta Everfree, na verdade — Twilight responde —, mas quem é você?

— Ãh… eu… é, tipo, vocês são as Mane S-- quer dizer, ãããh, vocês são os Elementos da Harmonia, né?

Quanto mais ele falava, mais as seis pôneis notavam um sotaque incomum na voz dele, que nenhuma delas reconhecia: aquele “meãsmo”, aquele “néãm”, não eram nada familiares.

— É isso mesmo! — Rainbow Dash responde, quase fazendo uma pose.

— Sim, mas, e você? — Twilight tenta de novo. — Qual é o seu nome?

— Meu nome — ele diz, fazendo uma pausa, como se tentasse lembrar. — Eu sou o Dainty… ai, porr-- Eu sou Dainty Tunes, e… é, é isso.

— Bem, é um prazer imenso conhecê-lo, Dainty — Rarity diz —, e eu peço mil perdões por você estar nessa condição. Talvez, se nós nos conhecermos melhor, poderemos consertar essa situação horrível.

— Meninas! Vocês não sabem o que estão fazendo, não é mesmo? — Pinkie finalmente diz.

— Pinkie! — Dainty grita, exaltado. — Me tira daqui, por favor?

A pônei rosa desfere-lhe um olhar chocado. As outras cinco viram-se para ela. — Como é que… você sabe o meu nome? Eu nunca me apresentei pra você!

Dainty gagueja por um momento. — É que, ãm, todo mundo aqui te conhece, né? Tu é tri conhecida, e tal.

— Bom, isso é mesmo — Applejack diz. — Num tem ninguém que num conhece a Pinkie.

— É! É isso mesmo! — Dainty diz com urgência. — Tu é, tipo… uma pônei tri querida, e, tipo, por isso que eu, é, isso.

— Eu não tô convencida, não! — Pinkie retruca, aproximando-se dele, o que o faz encolher-se. — Então, a sua marca especial — ela diz, inspecionando-a de perto: uma clave de sol em uma pauta, seguida de três colcheias —, você faz música, então?

— É, sim, eu faço, é — ele diz —, eu faço… canções. Canções meigas. Dainty Tunes, né, é isso.

— Quais são as tríades do campo harmônico de Lá bemol maior? — Pinkie interroga, as sílabas voando tão rapidamente que ele mal consegue entender.

Ele fica com os olhos vidrados por um momento, sem conseguir pensar. — … é, Lá bemol maior, Si bemol mai-- não, menor, menor; Dó menor, Ré bemol maior, Mi bemol maior… Fá menor, e, é, Sol diminuto?

— Qual é a diferença entre Sol menor natural e Sol menor harmônica?

Dainty pensa por um momento, um pouco menos amedrontado. — Na primeira, o Fá é natural, e, na segunda, é sustenido? Não? Não, é isso, sim.

As pôneis lá atrás trocam olhares, ainda mais perplexas do que antes.

— Qual escala eu posso usar sobre o acorde Lá aumentado? — ela diz, com um olhar incisivo.

— É… qualquer uma que tu quiser, Pinkie! — ele disse, dando de ombros.

Os olhos dela ficam arregalados por um instante. — Correto! Hm, você é o primeiro que me dá a resposta certa pra essa pergunta.

— Que foi qui acabô de acontecê aí, afinal? — Applejack retruca, ajeitando o chapéu.

— Só estava checando se ele é mesmo da música, ou se é só fingimento — Pinkie explicou didaticamente. — Então! Se você escreve canções, que tal se você cantar uma delas para nós? — ela diz, com súbito drama.

— É… cantar? Bom, tipo…

Ele toma fôlego, mas logo começa a gaguejar e engasgar-se. Os olhos dele vão de um lado ao outro, e os olhares confusos nos rostos das outras pôneis deixam-no ainda mais nervoso. Enquanto ele tenta concentrar-se e parar de tremer, ele começa:

“Sai daí… O que tu pensa que vai conseguir…”

— Nada mal — Rarity diz, olhando para Twilight de relance.

Pinkie analisa cuidadosamente a canção, e começa a marcar o pulso com a cabeça, como se aprovasse-a. De súbito, então, ela começa a cantar junto:

“E pra quê? Se ao menos tu fosse um fracasso…”

As outras cinco assistem, sem reação, enquanto a cantoria fica mais e mais entusiasmada. De repente, Pinkie balança um isqueiro aceso sobre a cabeça:

“Preguiçoso e invejoso, o Cínico Meigo! Deixa de ser burro, te põe no teu lugar!”

— É, Pinkie? O que você tá fazendo? — Rainbow diz.

Do nada, os dois param de cantar. Os olhos de Pinkie arregalam-se, a pose dela congelada.

— Eu… eu comecei a cantar uma canção que eu nunca ouvi antes? — ela diz, jogando o isqueiro longe. — Vocês estão vendo? Isso é esquisito demais, até pra mim!

As pôneis dão de ombros. — Não que tenha como a gente saber — Fluttershy diz.

— Está bem, amigas, vamos manter o foco aqui — Twilight diz, virando-se para as outras pôneis. — Não podemos deixá-lo amarrado nessa cadeira sem motivo. Isso não está certo!

— Isso sim, mas a gente devia tentá conhecê melhor esse tal de Dainty aí — Applejack diz.

— Não seria má ideia — ele disse para si mesmo, antes de tossir e pigarrear alto. — Não, bah, certo! Certo, sim, a gente devia sim. Vamo lá.

Applejack fez uma pausa antes de prosseguir. — Então, parceiro, ocê é novo por aqui, né não? Cê vem daonde?

Dainty olha de um lado para o outro, nervoso, pensando. — É… Manehattan.

— Mesmo? — Pinkie diz, cética. — De qual parte de Manehattan?

Ele engole em seco. — Como assim?

— Manehattan é um lugar imenso — ela prossegue, avançando contra ele. — De qual região você é?

Ele estremece ao olhar para ela. — Da região norte?

— Região norte! — ela retruca, virando-se para as outras. — Dá pra acreditar?

— Pega leve aí, Pinkie — Applejack diz, passando diante dela para aproximar-se do pônei amedrontado. — Dá um tempo. Então, ocê veio fazê o que aqui?

— Bom, eu… eu vim fazer música.

— Você quer ser músico em Ponyville? — Rarity intervém. — Pois você teria uma chance bem maior em uma metrópole badalada, em vez do nosso humilde povoado.

— Mas e tu, Rarity? — ele diz. — Tu não teve que sair daqui por causa da tua carreira!

Ela pausa, olhando para as outras, antes de virar-se para ele de novo. — Você conhece o meu trabalho?

— É, tipo, claro! Eu… te admiro como artista, sabe.

— Oh, que lisonja, querido! — ela responde.

— Não! Rarity, não cai nessa! — Pinkie interrompe, correndo até ela. — Você não acha isso suspeito? Ele conhece você, sabe seu nome, sabe o meu nome, mas ele não sabe nem dizer de onde ele vem! Você acha que pode confiar nele?

— Pra ser sincera, ele é meio suspeito, mesmo — Rainbow Dash diz.

— Mas e se ele estiver só um pouquinho nervoso pra falar? — Fluttershy sugere, dando alguns passos inseguros na direção dele. — Quem sabe ele não se sente melhor se a gente desamarrar ele…

Pinkie Pie salta na direção dele. — Não! Não façam isso! Se a gente soltar ele, ele pode provocar o caos na vida de todo mundo!

— Uai, se ele pode fazê isso, por qui é que ele não faz isso agora? — Applejack diz.

— Amigas, amigas! — Twilight Sparkle diz, pondo-se diante das outras cinco. — Eu acho que devíamos fazer uma votação.

Pinkie joga-se no chão. — É o fim!

Twilight vira os olhos. — Enfim, quem é a favor de soltá-lo?

Ela ergue uma pata, juntamente com Fluttershy e Rarity.

— E quem é contra?

Applejack e Rainbow Dash trocam olhares e levantam a pata. Pinkie, que cobre o rosto com uma pata, ergue a outra o máximo que pode.

— Bom, isso não ajudou em nada — Twilight diz, suspirando.

— É isso que dá querê sê democrática demais — Applejack retruca.

— Meninas, deixem que eu faça uma última pergunta para ele, que tal? — Pinkie diz, levantando-se do chão. — Se isso não fizer vocês mudarem de ideia, vocês podem fazer o que quiserem com ele.

— Aí eu já gostei — Dainty murmura para si mesmo, e disfarça, pigarreando.

Twilight dá de ombros. — Tá bom.

Pinkie volta-se para ele, que agora está encolhendo-se e tremendo. — Seu sotaque. De onde é?

Ele congela por um instante. — Meu sotaque? Bah, é…

— É um belo sotaque, querido, não leve a mal. Mas eu afirmo, eu nunca ouvi outro pônei falar como você — Rarity diz —, e eu já conversei com pôneis de muitos lugares de Equéstria.

— Quem sabe não é um sotaque, mas um jeito pessoal de falar? — Twilight diz.

— Isso! É, tipo isso, né.

— Mas essas gírias? De que região isso é? — Fluttershy diz às outras. — Eu não as reconheço.

— Poderia ser o sotaque de Fillydélfia — Pinkie diz.

— É isso! — Dainty diz. — Isso mesmo.

Pinkie volta-se e aponta para ele, de pé nas patas traseiras. — A-há! Eu te peguei! Esse sotaque não é de Fillydélfia!

— … não? — ele choraminga.

— Você é uma auto-inserção!

— Tá bom, eu confesso! — ele grita. — Eu sou uma auto-inserção! Uma auto-inserção idiota, ridícula e sem sentido. Tu tem razão. Tu… vocês têm razão de ficarem bravas comigo.

— Nós não estamos bravas, amigo — Fluttershy diz.

— Eu sim! — Pinkie retruca. — Ele mentiu para nós! Ele nos enganou!

— É, eu tô com ela — Rainbow Dash diz, irritada.

— Mas por que essas auto-inserções são tão ruins? — Fluttershy diz. — O que são elas?

— São seres desconhecidos, originários de uma dimensão paralela, que se passam por pôneis em Equéstria e vivem uma vida diferente — Twilight explica. — Às vezes eles são a causa de distorções e anomalias no nosso mundo. Eles também são chamados de OCs.

— Original Characters — Dainty diz.

— Êpa, peraí — Applejack diz. — Cê sabia disso, Twilight? Cê sabia desde o começo?

— É claro. Eu já li a respeito, mas eu nunca vi um ao vivo.

— Bom, agora tu já viu, Twilight — Dainty diz, sua voz coberta de vergonha.

— E como é que a Pinkie sabe? — Rainbow diz.

— Por que é que ela não saberia? — ele responde. — Ela é a Pinkie Pie.

— O que você sabe a meu respeito, moço? — ela retruca, irritada.

— Bom, bastante, na verdade — ele diz, olhando para o chão, sem conseguir encará-la. — Mesmo eu vindo de uma dimensão diferente, a gente tá… conectado, de certa forma, dá pra se dizer. E eu admiro tudo em ti, e, por mais que esse seja um jeito… esquisito de te conhecer, eu tô grato por poder falar contigo. Tu é… genial.

Ela dá um sorriso breve antes de forçar uma carranca. — Não venha com conversa mole para cima de mim, rapaz! — ela diz. — Eu nunca vi uma auto-inserção que não causou bagunça por aqui.

Twilight franze a testa. — Quantas você já viu, Pinkie?

— Ela deve ter sequestrado todas elas — Rainbow responde.

— Que bobagem, claro que não! — Pinkie diz. — Elas às vezes vêm e vão, sem vocês verem. Mas eu vejo.

— Mas OCs não são todos ruins, eu juro! — ele diz. — Não é verdade, Rarity?

Ele pára de respirar, percebendo que fez algo muito errado.

Rarity dá uma olhada nervosa para as amigas. — Ãh, moi? Por que eu saberia disso, querido?

— É… porque tu é o Elemento da Generosidade, não é? — ele diz, estremecendo. — Tu é o tipo de pônei que saberia disso. E a Fluttershy, o Elemento da Gentileza, saberia melhor do que qualquer pess-- qualquer pônei. Por isso vocês queriam me soltar… Não que as outras sejam ruins, né, claro que não! Vocês são ótimas, todas vocês, eu só… é, esquece.

— Então, por que você está neste mundo? — Twilight diz.

— Na real, eu nem sei — ele responde. — Eu acho que… que eu queria saber como é passar por aqui, nesse mundo. Eu não queria nem conhecer vocês em pess-- é, em pônei, no caso, mas eu… eu ia ficar longe de vocês, ver as coisas à distância, e então, de repente, ir embora sem deixar rastro, tipo, fui. Tchau, radar, vamos adiante… Peraí, eu citei Engenheiros? Desculpa, gurias, eu sou um filho da p-- um tolo.

As pôneis trocam olhares confusos por um momento.

— Então, Pinkie — Rarity diz —, não havia motivo nenhum para isso tudo.

— Ah, não ponham a culpa nela, não — Dainty intervém. — Ela tem métodos… não ortodoxos, mas ela tinha razão pra suspeitar. Eu entendo ela. Ela é uma pônei maravilhosa, e eu jamais ficaria bravo com ela.

— Sim, sim, mas eu te devo um pedido de desculpas, mesmo assim — Pinkie diz, finalmente dando-lhe um olhar amistoso. — Desculpa por ter feito isso com você. E desculpa por ter assustado vocês, amigas. Eu vou ter cuidado da próxima vez… e eu não vou sequestrar ninguém.

— Certo, mas a gente vai fazer o que com ele? — Rainbow diz. — A gente pode confiar nele?

— Olhem só, meninas, eu faço uma promessa. Eu nunca, nunca vou interferir na vida de vocês. Eu nunca vou fazer nada que possa criar problema pra ninguém, seja em Ponyville ou em outro lugar. E, se eu algum dia fizer uma besteirinha que seja, eu vou embora pra sempre; e, se eu não for, vocês dão um jeito de se livrar de mim do jeito que for. Eu não sei se a minha palavra vale muita coisa, mas é tudo que eu tenho.

— É uma promessa da Pinkie? — a pônei rosa cobra.

— Sim, promessa da Pinkie! — ele diz de pronto. — Eu juro e… como é que é, mesmo?

— Eu juro e prometo colocar um bolinho no olho esquerdo! — ela diz.

Ele recita a promessa, com certo gosto. Ela sorri para ele.

— Então, o que dizem, meninas? — Twilight diz.

— Está bem, soltem ele — Pinkie diz. — Mas eu vou ficar de olho em você, ouviu?

— Eu sei, Pinkie — Dainty sorri.

Então, com uma mágica simples, Twilight desfaz os nós das cordas, e Dainty Tunes salta da cadeira, esticando as patas e o pescoço, quase em desespero. — Ai! Ah, obrigado, obrigado! Eu tava ficando maluco sem conseguir me mexer… Obrigado mesmo!

— Não tem de que, Dainty — Twilight responde. — Mas lembre-se da sua promessa.

— Claro! — ele responde, os olhos arregalados. — Eu sei o que acontece quando alguém quebra uma promessa da Pinkie… Ah, e… posso fazer um pedido? Podem dizer pro Spike que ele é demais e ele é maravilhoso e eu sou fã dele?

Twilight faz uma carranca. As outras trocam olhares.

— Vai embora, tá bom?

— Claro! Claro — ele diz e sai correndo imediatamente, quase tropeçando na primeira curva.